Falha Catastrófica

Naquele 3 de setembro de 3302, os comandantes Tango, Hawk e Hazger estavam, mais uma vez caçando recompensas no sistema de Omicron Columbae.

Cansado de fazer o trabalho que deveria ser da Segurança do Sistema, o Tenente Hazger, novato, insistia que estava preparado para o Jogo de Poder, já jurara lealdade à imperatriz e queria atacar como fosse possível a Federação. Sua Vulture estava armada e a postos.

Hawk, segundo-em-comando (XO), pilotava sua Fer-de-Lance, nave de ataque rápida de tamanho médio. Tango, oficial-comandante (CO) do esquadrão pilotava sua Corveta Federal (mesmo sendo ele aliado ao império, por razões desconhecidas), uma nau de combate superpesada que, apesar de lenta, possuía o maior poder de fogo reservado aos comandantes da galáxia.

— Vamos fazer sabotagem – insistia o tenente.
— Se você se sente pronto, vamos então – decidiram.

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Rumaram para o sistema de Puntin, onde uma operação daquela natureza estava acontecendo. Tanto o CO como o XO já eram conhecidos de lá: seus meses de experiência lhes renderam alguns milhões de créditos de recompensas sobre suas cabeças. A operação começou assim que todas as naves haviam chegado.

Os primeiros alvos caíram sem maiores consequências, utilizando o poder de fogo considerável das naves maiores, apenas cedendo o “killing blow” para o primeiro tenente.

Tudo estava bem até que não estava: o próximo alvo foi abordado, mas quase que imediatamente um novo sinal surgiu no radar e a comunicação no canal privado não deixava dúvidas, um caçador de recompensas estava lá, e sua Anaconda só rivalizava em tamanho contra a Corveta do Oficial Comandante.

— Eu cuido dele, derrubem o Fedlog.

Tenente e XO continuavam a martelar os escudos do cargueiro enquanto o CO dançava contra o caçador. Apesar do trabalho, as coisas corriam como esperado, até que…

— CONTATO!
— Reporte.
— Três Serviços de Segurança, todos Vipers.
— A polícia chegou, pessoal.
— Abortar, eles têm vantagem nos números. Saltem para fora do sistema.

O XO saltou poucos segundos depois, mas o tenente não estava familiarizado com as táticas de evasão e iniciou um “salto baixo”, apenas fazendo sua nave acelerar para velocidade de supercruzeiro. Seu erro se mostrou imediatamente: com várias toneladas a mais que sua pequena Vulture, a massa da Anaconda do caçador estava ancorando seu drive de deslocamento de referência (ou FSD como era conhecido no idioma comum), fazendo com que sua carga fosse oito vezes mais lenta que o normal.

— Eu estou tomando dano!
— Consegue gerenciar?
— Não, são muitos! Estão batendo forte!

O CO percebeu que a situação realmente havia se deteriorado muito e simplesmente deu as costas para o caçador para ajudar o novato. Passou a ser alvo sem piedade, mas os escudos de sua Corveta aguentariam o que fosse preciso.

Viu então quatro naves, todas atacando a pequena Vulture: os três policiais e o Fedlog que, de alvo, passava a ser algoz.

— Afaste-se! Use o boost!
— Os propulsores foram destruídos! Estou à deriva!

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O tenente tinha apenas alguns segundos antes de ser fulminado. O oficial comandante então fez o que podia: um a um, disparou contra todos os atacantes, o suficiente para chamar a atenção dos mesmos, que agora o atacavam. O tenente desligou seus subsistemas: um “hard reset” pode trazer um sistema essencial de volta e não havia outra alternativa.

O CO agora era atacado por todas as naves, por todos os lados. Uma Corveta é um poder considerável, mas mesmo naves capitais podem ser subjugadas por um enxame de naves menores. “SHIELDS OFFLINE”.

O tenente continuava religando seus subsistemas, quando o pior para o comandante aconteceu: primeiro foram alguns ruídos de cisalhamento, depois pequenos estouros. Por fim, todo o acrílico super-resistente de que era feito a cobertura transparente da ponte de comando explodiu em uma miríade de pequenos estilhaços. O ar foi tragado para fora, disparando o selamento do seu capacete e início do fornecimento do oxigênio de emergência.

7 minutos e 30 segundos.

Hazger reparou sua nave, propulsores religados, ele iniciou e completou o salto. Agora o CO podia abandonar aquela batalha: na direção para qual apontava iniciou a queima do combustível cru, acelerando a nave e elevando a temperatura além do máximo que sua estrutura aguentava. Apertou o botão onde se lia “FSD High-Wake”. “FSD FAILURE”, foi a resposta.

— Falha no FSD. Não estou conseguindo saltar!
— Chaff e boost. SAIA DAÍ – gritava o XO no comm.
— Eu estou fazendo isso. Não consigo ganhar distância. Desligando sistemas não essenciais.

Por “sistemas não essenciais” leia-se: “tudo aquilo que eu não preciso para sair vivo dessa”. Com base nesta nova definição, as armas foram as primeiras a serem desligadas. Seus cinco lasers consumiam a energia suficiente para alimentar uma pequena cidade e talvez fosse o necessário para trazer o FSD de volta. Ouviu a voz robótica finalmente dizer “Frame Shift Drive charging…”.

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Chegou do outro lado com menos de 30% de casco intacto. A voz que antes acusava a bendita carga do FSD agora repetia incessantemente a maldição “Catastrophic Failure”. Marcou a primeira estação espacial que pudesse receber sua nave superpesada no painel da esquerda e olhou para frente, e então se lembrou:

— Asas, preciso de ajuda para descer na estação.
— Como assim?
— Meu dossel explodiu.

4 minutos de oxigênio.

O XO respondeu com termos impublicáveis, ele sabia as implicações: os hologramas de aproximação são projetados no “vidro” e o do seu comandante fora deixado sete anos-luz atrás. Ele estava voando sem NENHUMA indicação visual além da bússola (que indica de forma grosseira o vetor de aproximação) e o radar (que mostra os contatos ao redor).

O novato fez uma sugestão relativamente inteligente:

— Comandante, o meu vidro já estourou, mas ele só quebra na frente. Use os vidros dos lados para ver a estação e alinhe de acordo.
— Tenente… Minha nave é uma Corvette…
— E daí?
— Ela só tem UM vidro, que cobre de um lado ao outro. Não sobrou NADA!

Agora era o tenente que pronunciava termos impublicáveis.

O XO tomou a dianteira e marcou a estação, ordenando ao CO que o seguisse. Isto não seria um problema, já que ele poderia localizá-lo usando o radar. O acompanhou. Se o XO chegasse na estação o comandante simplesmente diria para sua nave “dropar” da velocidade de dobra nas coordenadas do seu asa.

O alarme de interdição foi acionado: novamente o “bounty hunter”, que os perseguiu e iniciou a disputa de queda de braço espacial com o seu XO que o guiava. Se o CO mantivesse a trava de navegação e seu XO perdesse a disputa, os dois cairiam e a Corveta não aguentaria mais nenhum combate. Se ganhasse na interdição, ainda teria saído tanto da rota que não conseguiria voltar e ajudar seu comandante a tempo. Tango desligou a trava de navegação. Seu wingman não podia mais lhe ajudar, ele tinha seus próprios problemas.

2 minutos de oxigênio.

Sem indicação visual da estação. Apenas um vetor grosseiro que, em velocidade relativística, torna acertar uma estação espacial uma tarefa ainda mais difícil que acertar a traseira de uma flecha que está em um alvo a 3 km de distância com uma arma de ar comprimido enquanto se dá voltas em um carrossel que foi solto em queda livre por uma Nau Capitânia. Em Júpiter.

Seu XO o trouxe perto o bastante para que pudesse ver a estação, mas e daí? Ela estava lá, um dos milhares de luzes diretamente à sua frente, misturada com estrelas a dezenas, centenas e talvez milhares de anos-luz de distância. Era como acertar na loteria centenas de vezes seguidas.

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PARALAX.

Ele não sabe de onde veio a ideia. Se existe um anjo da guarda, ele gritou através de planos astrais para que sua voz chegasse até ele. Mas ela chegou.

Empurrou o manche para frente, inclinando a proa para baixo, até colocar um ângulo de ataque de 45 graus. Sua bússola agora acusava em vermelho que o alinhamento estava errado. Olhou 45 graus para cima. E esperou.

Segundos que pareceram anos, uma luz no fim do túnel começou a se mover. A luz de um objeto que não estava a ordens de magnitude a distância, o único entre aquela profusão de pequenas luzes que, devido a sua proximidade única, parecia se mover ao contrário das outras, por causa do efeito paralaxe.

Realinhou a nave, tomando todo cuidado dos mundos para não perder sua estrela da manhã. Não piscou deste instante até que os indicadores se tornassem todos azuis e a mensagem bem-vinda “SAFETY DROP” surgisse no painel. Ele havia conseguido chegar na estação, a meros 14 quilômetros.

— Lembre-se que você é PROCURADO neste sistema também!
— [REMOVIDO], TUDO TEM QUE DAR ERRADO?

50 segundos de oxigênio.

O Comandante conseguiu realizar a aproximação às cegas da estação, e agora estava nos quilômetros finais para a estrutura e o tão necessário oxigênio. Porém, suas travessuras nos sistemas da Federação o fizeram procurado também aqui. E se o destacamento que patrulha a entrada da estação percebesse, não seriam somente eles o problema, mas também os bilhões de toneladas de metal armadas com canhões capazes de transformar qualquer nave em uma névoa fina em segundos.

— Se ninguém varrer você não vai ser problema.
— Será, se eu errar a entrada da estação.
— Não erre, então.
— OBRIGADO, XO.

Ruído de “drop”. Seu wingman e XO conseguiram se desvencilhar da interdição e agora estava na estação, apenas alguns quilômetros atrás do seu superior.

— Deixa isso comigo.
— O que?

Tiros disparados. O XO estava abrindo fogo CONTRA A ESTAÇÃO. Todas as naves da segurança orbital se viraram imediatamente para ele, inclusive aquelas duas Vipers que já iniciavam a varredura na abatida Corveta, imediatamente interrompida em vista de uma ameaça maior.

Tal como ele havia feito pelo iniciante tenente, o XO salvou sua vida. Com a estação e a polícia disparando toneladas de projéteis e terawatts de potência em lasers na sua direção, ele entrou na estação tranquilamente, a primeira vez que este advérbio poderia ser usado desde que o dilema havia começado, 7 anos-luz atrás.

O contador parou em 38s de oxigênio de emergência restantes.

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Ele não se preocupava com o XO. Ele tinha uma Fer-de-Lance rápida que facilmente deixaria a polícia para trás. Os chaffs que ele usou para desorientar as miras dos seus algozes, somada à grande distância a que se encontrava quando abriu fogo contra a estação tornaram a chance de ser abatido mínima. Ele só precisava de um tiro para chamar a atenção, em um alvo absurdamente grande, mas seria necessário bem mais que isso para que a Federação destruísse sua nave. Ele partiu em seguida para mais 7 anos-luz além.

O comandante havia sobrevivido. Sem armas, com uma usina de força minimamente funcional, 38 segundos antes de sufocar e com 30% de casco intacto, em uma nave que somente o preço do seguro custaria 38 milhões de créditos. Perto disso, pagar os 800.000 para consertá-la foi de um prazer inenarrável.

Respirou fundo, enchendo os pulmões e desfrutando daquele gás inodoro com uma paixão que nunca sentira antes.

Autor: Gustavo "Tango" Vasconcelos

Não me pergunte sobre Cash. Sério, essa $@#&@ já encheu pneu de trem. Eu escrevo sobre games quando me dá na telha e tenho um lugar legal aqui para postar as coisas, cortesia do Dori. Já fui editor de alguns sites, mas meu trabalho oficial sempre tomou tempo demais para levar isso a sério. No VdG, de quando em nunca vocês podem ver algum texto meu, e sempre será de uma experiência pessoal.
  • Gustavo Vasconcelos

    No interesse da abertura total, os seguintes itens moram levemente modificados da história real:
    – O vocabulário foi menos técnico e mais composto por palavras de baixo-calão.
    – O sistema original não era Omicron Columbae. Como não lembrava qual tinha sido, usei aquele que foi minha residência por meses.

  • Caio Dias

    Não confirmo nem nego os acontecimentos 😁