Quem nunca parou para pensar como estaria sua vida hoje caso tivesse tomado uma decisão diferente em algum momento do passado? É o bater das asas de uma borboleta que pode causar um furacão do outro lado do mundo, é o que o espetacular jogo The Alters tenta responder ao usar a ficção científica para nos entregar uma história intrigante e uma jogabilidade viciante.
Famosos por nos colocar em universos onde as escolhas que fazemos impactam diretamente o desenrolar da história, dessa vez os poloneses da 11 bit studios decidiram levar sua experiência narrativa para os jogos de sobrevivência e a aposta não poderia ter sido mais acertada.
Em The Alters seremos Jan Dolski, único sobrevivente de uma missão de mineração em um planeta hostil onde a estrela mais próxima se mostra uma ameaça mortal. Após acordar em uma região remota e encontrar a estação de pesquisa a que foi enviado, o protagonista precisará buscar maneiras para sair do lugar, mas logo se verá diante de um impasse.

Crédito: Divulgação / 11 bit studios
Devido ao tamanho e a complexidade da instalação, gerenciar todos os sistemas sozinho é uma tarefa impossível, mas como resolver a situação se toda a tripulação morreu? Em contato com uma figura misteriosa pelo sistema de rádio, Jan descobre que o planeta possui uma grande quantidade de Rapidium, substância que, entre outras utilidades, pode ser usada para criar versões alternativas de si, algo conhecido como “Alters”.
Mas se a ideia de criar clones já parece eticamente questionável, aqui ela possui um agravante. Ao invés de produzir tábulas rasas, pessoas sem consciência de seus passados e que poderão se desenvolver como todos nós, em The Alters as cópias partirão de determinados pontos da vida do protagonista.
Sempre que formos criar “novos Jan”, teremos que escolher um evento importante da sua vida e partir para uma ramificação. Isso fará com que sua vida siga por um caminho diferente, o que consequentemente o levará a uma profissão diferente da original.
Contudo, não será apenas a especialização do sujeito que será afetada. Relacionamentos, impactos psicológicos, frustrações, conquistas… Muitas coisas poderão mudar só porque Jan decidiu se posicionar desta ou daquela maneira em alguma situação.

Crédito: Divulgação / 11 bit studios
Então, como essas novas versões de si conhecerão todo o passado até o ponto em que foram criados, o compartilhamento de memórias inevitavelmente gerará conflitos no presente. Isso acaba sendo amplificado pela condição em que nos encontramos, afinal estamos em um ambiente estranho, o fim está próximo e dividimos um pequeno espaço com versões alternativas — e nem sempre amistosas — de nós mesmo.
Com cada Alter apresentando personalidades e vontades próprias, teremos que saber como agradá-los, sempre tentando manter o melhor relacionamento possível entre a equipe. Isso faz com que as conversas sejam constantes e muito interessantes.
Contudo, não ache que o gerenciamento acontecerá apenas no âmbito pessoal. Jan precisará lidar com a produção e falta de alimentos, bem como o conserto da estação e mineração, o que nos permitirá desenvolver novos equipamentos ou mesmo Alters.

Crédito: Divulgação / 11 bit studios
Essas necessidades nos levarão a continuar explorando o planeta, quando The Alters se transforma em um jogo 3D com visão em terceira pessoa. Do lado de fora teremos que evitar anomalias, não ficar muito tempo expostos à radiação e cuidar do tempo, já que às 20h o ideal é estarmos de volta à estação de pesquisa.
Mas como a base precisa ser movida de tempos em tempos, para assim evitar a exposição à luz solar, conseguir administrar as horas será um dos maiores desafios que teremos pela frente. Por isso, saber delegar tarefas aos Alters será outra parte importante da jogabilidade. Quem ficará responsável por fazer a comida? Quem cuidará da manutenção e qual versão alternativa de você se arriscará do lado de fora minerando? Ah, lembre-se que eles se cansam e podem até mesmo morrer.
Com muitas camadas, tanto em sua jogabilidade quanto na narrativa, The Alters surge como um jogo extremamente criativo e viciante. Com ele a 11 bit studios conseguiu entregar um conjunto de personagens muito bem escritos, mesmo sendo apenas variações do protagonista.
Assim como as melhores obras de ficção científica, os roteiristas do estúdio conseguiram nos colocar para pensar em situações que, mesmo fugindo da realidade, são muito interessantes por envolver questões éticas, filosóficas e morais.

Crédito: Divulgação / 11 bit studios
The Alters também merece elogios por sua parte técnica de alto nível e pelo alto fator replay. Ver tudo o que ele tem a nos oferecer em apenas uma partida é impossível, então os curiosos e “complecionistas” precisarão experimentar diversas vezes para ver as várias ramificações disponíveis, sem falar nos múltiplos finais.
Se tivesse sido criado como um longa-metragem ou um livro, a obra da 11 bit studios provavelmente teria feito um grande sucesso, conquistando admiradores pelo seu conceito. Porém, fico feliz por os poloneses terem optado por transformar a ideia em um videogame, já que ela certamente funciona muito melhor como uma mídia interativa.
Não acho exagero afirmar que esse é um jogo obrigatório, mesmo para quem não gosta muito de títulos de sobrevivência ou gerenciamento de bases. Muito poderão desconfiar que um jogo é capaz de fazer isso, mas The Alters certamente te fará pensar sobre a pessoa que se tornou ao longo da vida e por que não, naquela que poderia ter se tornado.