É comum a arte se inspirar em eventos acontecidos no mundo real para contar histórias fantásticas, mas quando a base é algo tão recente e impactante quanto a pandemia de COVID-19, existe um alto risco de causar um desconforto desnecessário. Talvez esse temor tenha ocorrido aos criadores do Cronos: The New Dawn, mas não a ponto de os impedirem de dar continuidade ao projeto.
No jogo conheceremos uma Polônia do início dos anos 1980 que foi devastada por um evento conhecido como A Mudança. Ele se originou de uma praga que começa com sintomas leves, como febre e tosse, mas evolui para cegueira e afeta a parte mental das pessoas, causando paranoia e, por fim, transformando as vítimas em criaturas mutantes conhecidas como Órfãos.
O que torna esses seres ainda mais assustadores é sua capacidade de fundir seus corpos com os de outros humanos, criando monstros assustadores formados por massas disformes de carne e membros. Se a descrição já remete a algo grotesco, a escolha não foi por acaso, já que ela remete diretamente ao tema central do enredo: o coletivo extinguindo os indivíduos.

Crédito: Divulgação / Bloober Team
Em Cronos: The New Dawn seremos A Viajante, uma agente de uma organização chamada O Coletivo e cuja missão é viajar no tempo para obter Essências. Funcionando como a alma ou consciência das pessoas, teremos que extrair esse material, se é que podemos chamar assim, antes que elas morram, para desta forma termos acesso às pistas que podem revelar a origem da praga. Contudo, a cada extração a protagonista terá sua sanidade deteriorada, o que a levará a questionar sua própria identidade.
Com uma narrativa que explora de maneira interessante essa questão da viagem no tempo, esse é o tipo de jogo que quanto menos você souber sobre o seu enredo, melhor ele parecerá. Poder descobrir as nuances da história conforme avançamos por Nova Alvorada ajuda a tornar a atmosfera muito mais pesada e dois pontos em que a criação do Bloober Team mais se destaca positivamente são justamente esses, seu enredo e o clima pesado que nos entrega.
A escolha por ambientar a história em uma Polônia retrofuturista também foi acertada, com a arquitetura do país europeu, seu maquinário e indústrias transformando qualquer corredor, qualquer construção, em um ambiente hostil, onde cada sombra parece esconder alguma ameaça.

Crédito: Divulgação / Bloober Team
A campanha de Cronos: The New Dawn passa a sensação de estarmos jogando alguns dos principais nomes do terror: Resident Evil 4, Dead Space e Silent Hill 2 — sendo que o estúdio polonês foi o responsável pelo remake deste título lançado recentemente. Essa influência vai desde a ambientação sombria até o sistema de combate, com sua câmera em terceira pessoa.
Porém, enquanto a nova franquia aproveita a tensão daquele jogo que passa no espaço, a exploração do título de zumbis da Capcom e o terror psicológico da criação da Konami, ele adiciona a essa mistura um elemento inovador e que casa muito bem com sua ideia.
Aproveitando a principal característica dos Órfãos, sempre que encontrarmos um deles morto pelo caminho ou mesmo após os abatermos, precisamos ter em mente que se outro surgir, poderá se apossar daquele corpo para ficar mais forte. Desta forma, um simples inimigo poderá logo se transformar numa forte e aterrorizante ameaça.
A maneira de evitar esse fortalecimento é queimando os corpos espalhados pelo caminho, o que, acredite, é muito menos fácil de fazer do que parece. O problema está na quantidade de recursos disponível para incendiar os monstros e no pouco espaço disponível no inventário. Aliás, Cronos: The New Dawn é um jogo que leva a escassez de itens ao extremo, nos forçando a sempre pensar muito bem em quando disparar a arma, quando usar algum kit de energia ou quais Órfãos queimar.

Crédito: Divulgação / Bloober Team
Falando assim, pode parecer um ponto negativo, mas este é um jogo de terror de sobrevivência, logo o receio de ficarmos desprotegidos ou com a vida por um fio faz parte da criação da atmosfera. Então, que fique claro: se você prefere sair por aí atirando em tudo que se move, pois sabe que na próxima esquina terá munição para abastecer o exército de um pequeno país, é melhor não se arriscar por Nova Alvorada.
Também merece destaque a maneira como o estúdio implementou quebra-cabeças baseados na viagem do tempo, o que faz com que algo feito em uma época interfira diretamente em outra. Os chefes também costumam oferecer um bom desafio, nos obrigando a calcular bem os ataques e gerenciar as armas. Porém, a maneira “pesada” como a personagem se move e a falta de um botão para esquiva passa a sensação de injustiça, aumentando bastante a dificuldade.
Quanto aos Órfãos “comuns”, a falta de variedade contribui para tornar a experiência repetitiva e num título que pode durar cerca de 20 horas, isso é um ponto que alguns considerarão negativo. Contudo, a possibilidade deles aproveitarem os corpos de outros monstros faz com que um inimigo possa se modificar e essa necessidade de controlarmos o campo de batalha gera uma imprevisibilidade que atenua essa sensação.

Crédito: Divulgação / Bloober Team
Como não quero estragar a surpresa de ninguém, me limito a dizer que o embate entre os conceitos de individualidade e coletividade é bem explorado, além das questões morais relacionadas a quem salvar são elementos bem explorados.
A lamentar, apenas algumas quedas da taxa de atualização de frames, algo que não chega a ser gritante, mas ao menos no PlayStation 5 existe, mesmo quando jogado no modo desempenho.
Cronos: The New Dawn não é um jogo perfeito, mas após conquistar alguns admiradores com jogos como Observer: System Redux, Layers of Fear, Medium e Silen Hill 2, o Bloober Team reforça seu talento em contar histórias interessantes.