Acho que não seria exagero dizer que, considerando os últimos 30 anos, nada foi mais importante para os videogames do que a distribuição digital e a ascensão das desenvolvedoras independentes. Foram essas duas partes que, somadas, permitiram o nascimento de projetos que provavelmente nunca seriam aceitos por grandes editoras, e um ótimo exemplo disso é o jogo Dread Delusion.
Desenvolvido por James Wragg, sua criação começou em 2019 na cidade de Brighton, Inglaterra, partindo do desejo do game designer em unir os RPGs com o estilo walking simulator. Para ele, os RPGs modernos estavam “desnecessariamente sobrecarregados de combate repetitivo” e por isso queria criar algo diferente.
Após alguns meses dedicados ao projeto, em fevereiro de 2020 Wragg submeteu uma versão jogável ao projeto colaborativo Haunted PS1 Demo Disc, coletânea indie de demos com estética de PlayStation e que acabou servindo como uma vitrine para o título.
Com a atenção do público capturada, em junho de 2022, o jogo chegou ao Steam como em Acesso Antecipado, após uma parceria com a editora DreadXP. A princípio, o inglês planejava lançar direto em versão completa, mas acabou sendo convencido pelo programa da loja da Valve ao receber o feedback dos jogadores. O lançamento completo aconteceria em maio de 2024, trazendo o ato final da história e, só agora, em março de 2026, Dread Delusion estreia nos consoles, com versões para Nintendo Switch 2, PlayStation 4, PlayStation 5, Xbox One e Xbox Series X.

Crédito: Lovely Hellplace
Mas o que faz desse um jogo que considero especial? Bom, principalmente a sua estética que remete à época do primeiro console da Sony, o que fará algumas pessoas lembrarem de um clássico cult que praticamente desapareceu, o primeiro jogo da adorada FromSoftware, King’s Field.
Tendo servido ao lado de The Elder Scrolls III: Morrowind como uma fonte de inspiração para Wragg, daquele jogo o game designer tirou elementos como a perspectiva em primeira pessoa, uma narrativa mais escorada na atmosfera entregue e muitos segredos espalhados pelo mundo.
No entanto, a principal característica que o Dread Delusion aproveitou daquele título, sem dúvida, está na estética de polígonos em baixa resolução. Do mundo em si à paleta de cores, quem teve a oportunidade de jogar King’s Field na época de seu lançamento provavelmente lembrará do título assim que iniciar uma campanha na obra de Wragg.
Para os saudosistas (meu caso), o jogo servirá como uma viagem ao passado, pois, mesmo com os títulos do primeiro PlayStation parecendo muito datados devido à capacidade daquele console em produzir gráficos em 3D, algumas pessoas conseguem enxergar um charme nesse estilo.
Seu visual certamente causará estranheza em várias pessoas, com seu efeito de distorção visual que faz os modelos “respirarem” e ondularem na tela, como se o mundo estivesse sob o efeito de alucinógenos, podendo incomodar. Esteticamente, o recurso é coerente com o universo, mas não deixa de ser algo visualmente pesado. Felizmente, ele pode ser desativado nas configurações.

Crédito: Lovely Hellplace
Porém, eu não diria que essa é a melhor característica do Dread Delusion. Onde o jogo realmente brilha é na sua capacidade de nos colocar em um mundo em que a exploração é tanto motivada quanto recompensada. Aqui não temos um mundo gigantesco, mas o que ele nos proporciona é suficientemente vasto a ponto de querermos visitar cada canto, conversar com cada personagem que encontramos pelo caminho.
Em nossas andanças, será comum ficarmos pensando se vale o risco de irmos até um determinado lugar, se aquela casa possui alguma passagem secreta ou se há uma forma alternativa (e mais segura) de invadirmos uma construção. E quando percebemos que aquela alavanca desbloqueará um atalho, a sensação de sermos um bom aventureiro nos motivará a continuar em nossa missão.
E por falar no nosso papel nas Oneiric Isles, em Dread Delusion acordaremos como um prisioneiro da Inquisição da Apostatic Union, a força que controla as ilhas flutuantes que surgiram após um apocalipse conhecido como o “World Rend”. O evento destruiu a superfície do planeta há muito tempo e, para conseguir nossa liberdade, teremos que capturar Vela Callose, uma foragida que já foi filha de um almirante da União e hoje lidera os mercenários Dark Star.
Obviamente, o que começa como uma mera caçada vai se transformando em algo muito maior. As Oneiric Isles são divididas em regiões com características próprias: o Endless Realm, onde os habitantes não conseguem morrer e veem seus corpos apodrecerem eternamente; o Clockwork Kingdom, dominado por um rei robótico enlouquecido que condena seus súditos ao vazio. A Union, que por sua vez não persegue hereges no sentido religioso tradicional, mas sim quem ainda acredita nos velhos deuses, enfim…

O enredo de Dread Delusion não será de fácil compreensão, com nuances de sua história precisando ser reunidas e ganhando sentido só após muita exploração. Mesmo não sendo algo tão obscuro quanto um Demon’s Souls ou um Dark Souls, nem todos conseguirão entender muito bem o que sua história tem a contar. Também contribuiu para isso o fato de o título não estar localizado para o português.
Ou seja, aqui temos um universo denso e envolvente, onde cada diálogo, cada livro encontrado nas prateleiras, cada NPC tem algo a acrescentar à história do mundo. O jogo recompensa quem para pra ler e se você prefere RPGs focados a ação, provavelmente se decepcionará.
Aliás, duas das principais reclamações em relação ao jogo recaem sobre o quão vazio é seu mundo e sobre o sistema de combate muito simples. Nele, quase sempre que nos envolvemos em um confronto se resumirá a realizar três passos: avançar, atacar e recuar. Com uma inteligência artificial muito previsível, os inimigos raramente oferecem algum desafio, tornando os combates tediosos e desinteressantes. Some a isso não recebermos experiência por lutar, mas sim após coletar cristais, e fica claro como esse não é um jogo para “guerreiros”.
Verdade seja dita, talvez isso nem possa ser visto como demérito, afinal seu criador queria trazer muito dos walking simulators para os RPGs e, por isso, podemos dizer que ele alcançou o objetivo. Para quem prefere explorar a viver se metendo em brigas, Dread Delusion parecerá a realização de um sonho, com destaque para algumas missões com fortes dilemas morais, como aquela que aborda rituais de sacrifício ou outra sobre fazendas de carne humana.
Até pela sua estética incomum, Dread Delusion não é um jogo recomendável a qualquer pessoa. Se você estiver esperando um souls-like ou mesmo algo mais parecido com o King’s Field, certamente se decepcionará. Agora, se o objetivo for explorar um mundo com muitos segredos a serem descobertos, está disposto a conversar com vários NPCs e não se importa com uma “estética PS1”, encontrará nele um indie muito interessante.