A Crate Entertainment é um caso a ser estudado. Fundado em 2008 por ex-funcionários da Iron Lore Entertainment, o estúdio permanece independente até hoje e durante esses 17 anos seu portifólio conta com apenas dois títulos. O primeiro deles foi o Grim Dawn e agora, após mais de três anos de um período de Acesso Antecipado, Farthest Frontier chega à sua versão “final”. Mas a espera valeu a pena?

Pois a aposta feita pelos norte-americanos neste novo projeto foi bastante ousada. Conhecidos por terem nos dados um excelente CRPG que evoluiu muito ao longo dos anos, eles preferiram não investir em uma continuação, apostando em um gênero bastante diferente: estratégia em tempo real.

Farthest Frontier

Crédito: Divulgação / Crate Entertainment

Farthest Frontier é um simulador medieval de construção de cidades que busca inovar ao nos colocar para cuidar de muito mais do que apenas a questão financeira dos assentamentos. Com um nível de profundidade e realismo bem acima da média do gênero, o jogo desafiará mesmo aqueles acostumados a gerenciar populações em títulos desse estilo.

No jogo, as cidades têm sua progressão baseada em marcos populacionais, que desbloqueiam novas construções e cadeias de produção. As residências podem ser aprimoradas por meio de cinco níveis diferentes, mas isso requer que a atratividade dos arredores seja adequada. Assim, enquanto edifícios industriais reduzem o apelo, construções de serviços e objetos decorativos como arbustos e parques causam um impacto positivo nos habitantes.​​

Nele devemos estabelecer um assentamento em uma fronteira hostil, onde a sobrevivência depende da gestão de recursos e planejamento estratégico. Essa tensão se tornará evidente já no primeiro ano de uma jornada, quando cada decisão poderá significar a diferença entre prosperar e fracassar. Por exemplo, se você construir casas demais desperdiçará madeira e mão de obra e como a comida estraga, de nada adiantará armazenar alimentos em excesso.​

Farthest Frontier

Crédito: Divulgação / Crate Entertainment

E por falar em alimentos, uma das características mais interessantes de Farthest Frontier é o seu detalhado sistema agrícola. O jogo implementa um ciclo sazonal completo que exige gestão cuidadosa de estoques, pois além de estragar, os alimentos podem ser consumidos por pragas ou pela vida selvagem. Há também a possibilidade de explorar diversos tipos de plantações de forma cíclica, planejando rotações de tempos em tempos para prevenir o esgotamento do solo e reduzir a propagação de doenças. A fertilidade do solo e a rotação sazonal de plantios criam uma camada de complexidade que, se existe em outros jogos do gênero, sinceramente desconheço.

Outro fator com o qual deveremos nos preocupar são as doenças. Enquanto vemos nossa cidade crescer, será importante garantir que os moradores tenham acesso à água limpa, para prevenir surtos de disenteria e cólera, ou coletar frutas vermelhas e plantar verduras para evitar escorbuto. Já raiva, tétano e hipotermia poderão ser evitadas se lhes dermos calçados e roupas adequadas. Conforme avançamos pelas eras teremos a opção de construir um lugar que servirá como hospital, permitindo colocar infectados em quarentena e fornecer ervas e medicamentos para tratamento, enquanto o controle de roedores através da coleta de lixo e emprego de caçadores de ratos ajuda a prevenir a temida peste bubônica.

Mas, como tudo que está ruim ainda pode piorar, nosso assentamento ainda terá que lidar com bandidos, que constantemente estarão interessados na nossa comida e riquezas. Para evitar essas incursões, poderemos construir muros e torres de vigia, embora o ideal mesmo seja manter um exército permanente, o que terá um custo que talvez nem todos os “prefeitos virtuais” conseguirão pagar. 

Farthest Frontier

Crédito: Divulgação / Crate Entertainment

Contudo, como o sistema também pode servir para o ataque, se você se sentir preparado o suficiente para isso poderá partir em direção ao acampamento de bandidos para tentar eliminá-los.

Já para quem prefere uma experiência menos desgastante, saiba que será possível jogar no modo Pioneiro, o que nos dá mais recursos e menos desafios, ou mesmo optar pelo modo Pacifista, onde o foco estará na construção. Mas se você gosta de um desafio maior, basta iniciar uma campanha na dificuldade Conquistador. 

Visualmente o título me agradou, muito pela sua bela direção artística, mas também pelo nível de detalhes, especialmente quando se trata da transição entre estações do ano. A Crate Entertainment fez com que as mudanças sazonais fossem renderizadas de forma dinâmica e suave, com o verde do verão dando lugar ao laranja do outono, que por sua vez é seguido pelo branco do inverno. Para um jogo tão baseado nas estações, esse é um detalhe importante, mas que poderia ter sido ignorado pela desenvolvedora.

Versão 1.0

Crédito: Divulgação / Crate Entertainment

Com o apoio dos jogadores e muita dedicação do estúdio, ao sair do Acesso Antecipado o Farthest Frontier ganhou uma série de melhorias. De novas construções e estruturas a animais e recursos, o jogo recebeu diversas melhorias de qualidade de vida e em sua interface, tornando melhor o que vinha sendo elogiado por muitos. Contudo, duas novidades merecem destaque:

  • Árvore de Tecnologia: com 142 pontos de pesquisa, o sistema revoluciona a progressão do jogo. Ele nos permite desbloquear edifícios importantes na ordem de nossa preferência, possibilitando a especialização do assentamento em agricultura, produção ou aspectos militares. A árvore tecnológica é desbloqueada através da geração de conhecimento, recurso que pode ser acelerado com a produção de papel através da nova Guilda e indústria de papel.
  • Sistema de Políticas: nos oferece a capacidade de definir regras específicas para os assentamentos, permitindo ajustes em diversos aspectos como produção, defesas e felicidade. Embora tragam benefícios, algumas dessas políticas também exigirão sacrifícios que podem ser bastante prejudiciais, nos exigindo estratégia na hora de fazer as escolhas. Cada política pode ser ativada ou desativada em intervalos de 12 meses, e algumas precisam ser pesquisadas na árvore tecnológica antes de se tornarem disponíveis.

Eu ainda tenho muito o que aprender com o Farthest Frontier, pois esse é um jogo complexo e que exige dedicação e atenção de quem quer montar a melhor cidade medieval possível. Porém, se você estiver disposto a isso, será recompensado com um título muito bonito, repleto de nuances e bastante desafiador. Eu só gostaria de ter mais tempo para poder passar imerso neste construtor de cidades tão fascinante. 

Masculino
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Pai em tempo integral do Nicolas, enquanto se divide entre a comunicação pública e o Vida de Gamer, tenta encontrar um tempinho para aproveitar algumas das suas paixões, os filmes, os quadrinhos, o futebol e os videogames. Acredita que um dia conseguirá jogar todos os games da sua coleção.