Inovar na criação de um jogo para tentar se destacar no meio de tantos lançamentos não é uma tarefa simples e uma estratégia que tem sido adotada por alguns estúdios é mesclar alguns gêneros. Essa parece ter sido a ideia da Tribute Games com o Scott Pilgrim EX e o resultado acabou saindo melhor do que eu esperava.

A aventura coloca Scott Pilgrim e Ramona Flowers em uma nova jornada pelas ruas de Toronto, em uma missão que envolve salvar os companheiros de banda do Sex Bob-Omb, com a ajuda de Young Neil. O grande antagonista, Gideon Graves, continua como a mente por trás de tudo, um vilão que usa o poder psicológico sobre os traumas alheios para manipular e controlar, fazendo dele alguém que vai muito além de um simples chefe de fase.

Crédito: Tribute Games

O enredo mantém o espírito caótico e engraçado dos quadrinhos criados por Bryan Lee O’Malley, misturando humor nerd e referências a jogos clássicos. Para quem já conhece a franquia — seja pelos HQs, pelo filme ou pela série da Netflix —, a narrativa parecerá como reencontrar velhos amigos. Já para quem chega de primeira viagem, o mundo é acolhedor o suficiente para não deixar ninguém de fora.​

Também pode ser considerado positivo que, se o Scott Pilgrim vs. the World: The Game se baseia na história dos quadrinhos e do filme, com Scott enfrentando os sete ex-namorados de Ramona, em EX temos uma história original, ambientada após os eventos da série animada Scott Pilgrim Takes Off, da Netflix, nos colocando diante de dinossauros, clones robóticos e outros tipos de maluquices.

Contudo, a principal diferença deste novo capítulo está na estrutura de suas fases. Se o jogo de 2010 respondia como um beat ‘em up clássico com scroll lateral, com fases lineares jogadas em sequência, Scott Pilgrim EX transforma Toronto em um mundo totalmente explorável, com zonas interconectadas, caminhos escondidos, várias rotas a serem seguidas e passagens secretas. Assim, revisitar áreas antigas desbloqueia novos conteúdos conforme avançamos, fazendo do design algo no estilo Metroidvania.

Scott Pilgrim EX

Crédito: Tribute Games

Isso acaba com a tradicional linearidade dos jogos de briga de rua, fazendo dele algo como um jogo de (pequeno) mundo aberto, com zonas exploráveis. Ou seja, teremos que viajar pela cidade, encontrar NPCs, aceitar missões secundárias e descobrir segredos escondidos em locais que pareciam inacessíveis.

E, como acontece em quase todos os Metroidvania, o título da Tribute Games não se foge da utilização do backtracking, que é a necessidade de revisitarmos áreas já conhecidas. Isso acontecerá após a aquisição de itens ou habilidades específicas, o que permitirá que caminhos se abram e o retorno a esses pontos seja visto como algo recompensador.

Outro sistema adotado por este beat ‘em up são os elementos típicos de RPGs. Com cada inimigo derrotado rendendo recursos, as lojas espalhadas pelo mapa permitem investir em atributos do personagem. Desta forma, gradativamente sentimos o herói se tornando mais poderoso, forte e rápido. Os personagens também podem ser otimizados com emblemas especiais que melhoram habilidades e concedem bônus únicos, além de contarem com um sistema de assistências e itens de bônus.

Crédito: Tribute Games

Mas enquanto muitos beat ‘em ups modernos colocam toda a ênfase em longas sequências de combos, Scott Pilgrim EX foca na mobilidade. Ou seja, o jogador tem à sua disposição esquivas, saltos altos e dashes para se mover pelo cenário, encadeando ataques de formas variadas. Assim, mesmo com a tela repleta de inimigos, teremos várias opções para lidar com a situação, fazendo com que “dominar” o caos seja tanto desafiador quanto divertido.​

Também merece destaque a pixel art do jogo, que mantém o estilo da franquia. Porém, prefiro a arte do título anterior, pois trazia muito mais detalhes e uma direção artística que considero mais bonita. Já a trilha sonora é assinada pela banda Anamanaguchi, cujo som eletrônico e acelerado combina com o ritmo do jogo. Essas partes juntas resultam em uma identidade audiovisual que funciona muito bem.

Ao todo, temos sete personagens selecionáveis, cada um com seu próprio conjunto de movimentos, assistências e sensação única no controle. A troca entre eles é possível, mas o que deverá desagradar algumas pessoas é que, para isso, teremos que ir até a casa de Wallace Wells, localizada no início do mapa. Essa é uma burocracia que poderia ter sido evitada e que não existe em outro ótimo beat ‘em up da mesma desenvolvedora, o Marvel Cosmic Invasion.

Scott Pilgrim EX

Crédito: Tribute Games

No fim das contas, o que pode incomodar os mais exigentes é a curta duração da aventura. Atravessar o jogo direto, sem se preocupar com suas missões paralelas, pode ser feito em cerca de uma hora. Por outro lado, obter todos os upgrades e explorar tudo o que ele tem a nos oferecer fará esse tempo mais do que dobrar, o que dá uma ideia da quantidade de conteúdo disponível.

Scott Pilgrim EX entrega uma boa jogabilidade, com combates fluídos e uma estrutura de fases que, mesmo com o vai e vem dos metroidvanias, não se tornam enfadonhas. Na teoria, essa mistura de gêneros poderia sugerir um desastre, mas na prática ela se mostra uma boa escolha — e, principalmente, muito bem executada.

Trata-se de um título recomendado aos fãs da franquia, mas principalmente a quem aprecia um bom beat ‘em up. Se o seu desejo é por um jogo de briga de rua complexo, que ofereça combos imensos e com uma história madura, há outras opções melhores, mas se procura apenas a mais pura diversão, poderá encontrar nele um ótimo passatempo.

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Pai em tempo integral do Nicolas, enquanto se divide entre a comunicação pública e o Vida de Gamer, tenta encontrar um tempinho para aproveitar algumas das suas paixões, os filmes, os quadrinhos, o futebol e os videogames. Acredita que um dia conseguirá jogar todos os games da sua coleção.