Poucas editoras podem se orgulhar por ter uma quantidade tão grande e relevante de marcas como a Sega. Mas se por vários anos a empresa ignorou boa parte de suas lendárias franquias, agora eles parecem dedicados a resgatar esse legado e uma dessas tentativas atende pelo nome Shinobi: Art of Vengeance.

Desenvolvido pela Lizardcube, o jogo que acaba de receber versões para  PC, PlayStation 5, Xbox Series X|S e Nintendo Switch chega como o primeiro capítulo desde 2011, quando o Shinobi 3D foi lançado, trazendo uma série de novidades que devem agradar o público que não teve contato com os originais, mas também reacende a paixão naqueles que cresceram curtindo as aventuras de Joe Musashi.

Desta vez ele aparece como mestre ninja do clã Oboro, cuja vila é atacada pela organização ENE Corp., liderada com mãos de ferro por Lorde Ruse. Com sua esposa  grávida, Musashi precisa salvar os habitantes do local, mas ele falha nesta missão e as pessoas acabam transformadas em estátuas de pedra. Após encontrar o vilão, que foge enquanto o herói precisa enfrentar um dos seus tenentes, partiremos em uma corrida por vingança, enquanto tentamos salvar o povo daquele vilarejo e o mundo todo da ameaça.

Shinobi: Art of Vengeance

Crédito: Divulgação / Lizardcube

Embora exista uma motivação pessoal para o ninja, a ambição da ENE Corp. é muito maior, com a companhia se aproveitando de artefatos místicos para criar um exército que mistura tecnologia com magia. Mas para isso o tirano precisa acabar com a último foco de resistência que pode atrapalhar a abertura de portais dimensionais e a consequente subjugação de nações inteiras: o clã Oboro.

Essa inusitada mistura ajuda a tornar mais plausível a ambientação de Shinobi: Art of Vengeance, com o choque entre artes ninjas ancestrais e a tecnologia bélica da ENE Corp., com suas fortalezas tecnológicas e monstros sobrenaturais.

E nessa jornada de vingança que mescla exploração, combates e uma narrativa sucinta, mas interessante, Joe Musashi passará por dez fases que vão desde a sua vila até cidades altamente tecnológicas, passando por florestas e até um enorme kaiju. No entanto, o que mais chamou minha atenção na estrutura do jogo foi a maneira como esses estágios estão divididos.

Embora funcionem de maneira independente uns dos outros, eles foram criados adotando o estilo Metroidvania. Assim, é como se cada fase funcionasse como um pequeno mapa criado neste subgênero, com ambientação própria, seções de plataforma, combate intenso e chefes únicos, garantindo variação constante de ritmo e cenários. Como grande fã de metroidvanias, eu não poderia ter ficado mais feliz com a ideia e principalmente, com sua execução.

Desta forma, além de adicionar um senso de exploração às fases, a desenvolvedora conseguiu aumentar o fato replay, nos incentivando a refazer uma mesma fase diversas vezes para abrir atalhos ou encontrar itens escondidos. O melhor seria se tudo estivesse interconectado como em um Metroidvania tradicional? Talvez, mas cada nível é um ecossistema com ramificações, atalhos, objetivos secundários e caminhos que se abrem conforme novas ferramentas são debloqueadas. Com essa aposta, o estúdio reduziu o backtracking, fazendo com que ele exista, mas não seja obrigatório, focando muito mais na ação. Para quem não gosta de ficar vagando por um grande mundo e explorando, basta seguir em direção ao lado direito da tela e terá algo mais próximo dos primeiros jogos da série.

Crédito: Divulgação / Lizardcube

Desta forma, aqui temos um ótimo equilíbrio entre linearidade e exploração, com níveis que evitam a repetição e aumenta a vida útil da campanha sem parecer algo artificial. Sem dúvida, um estilo que merece ser adotado por outros jogos de aventura com visão em duas dimensões.

Já os gráficos lhe dão um ar de “pintura em movimento” e a Lizarcube merece elogios pela qualidade alcançada, tanto no nível de detalhes e direção artística dos cenários, quanto na animação dos personagens. Shinobi: Art of Vengeance faz parte de uma nova (ok, não tão nova assim) leva de jogos 2D que, há 15 ou 20 anos, só existiriam em nossos sonhos. Esses títulos mais parecem desenhos animados interativos — neste caso, um dos anos 90 —, obras que exigem um nível de dedicação imenso dos artistas em sua criação e que felizmente estão recebendo o incentivo e o tempo necessários para dar vida a essas criações.

Os mais puristas podem alegar que preferem a boa e velha pixelart — e não os julgo por isso, também adoro o estilo. Porém, com o poder de processamento das máquinas atuais, é extremamente prazeroso poder ver algo tão bonito quanto esse retorno de Joe Musashi.

Crédito: Divulgação / Lizardcube

As técnicas empregadas e que misturam arte tradicional e sombreamento avançado casam perfeitamente com os tradicionais templos japoneses, contrastando lindamente com as sequências urbanas iluminadas por neons. A imersão visual se torna ainda maior com as partículas vistas durante magias e os reflexos em superfícies aquáticas, tudo em alta resolução e sem quedas nas taxas de frames.

No entanto, as qualidades descritas até aqui de nada adiantariam se a jogabilidade não fizesse jus aos primeiros capítulos da franquia. Unindo velocidade e precisão, os combates aproximam o jogo de um beat em’ up, sem que os inimigos caiam com apenas um golpe, como acontecia nos primeiros jogos.

Será preciso desmontar defesas, ler os padrões e sustentar a pressão, usando a criatividade para acertar a maior quantidade possível de inimigos, no menor tempo que conseguirmos. Isso faz com que o jogo entregue o que poderia ser melhor, que é nos colocar no controle de um experiente e habilidoso ninja.

Shinobi: Art of Vengeance exige alguma habilidade por parte do jogador, principalmente durante pontos de desafios presentes nas fases e que são conhecidos como Fendas Ankou, ou contra chefes, mas ele conta com uma curva de aprendizado suave que nos apresenta aos movimentos num bom ritmo. Já os veteranos se divertirão enquanto rolam, realizam saltos duplos e ataques aéreos em busca do timing perfeito e o maior combo possível.

Shinobi: Art of Vengeance

Crédito: Divulgação / Lizardcube

Durante as batalhas ainda teremos três técnicas especiais à nossa disposição: uma barra de atordoamento que enche conforme atacamos um mesmo inimigo em sequência e que, ao ser acionada, dispara uma Execução Shinobi, podendo matar vários adversários com golpes rápidos; a Ninpo, que são magias elementais que podem ser ativadas após uma barra de energia que se regenera ao acertarmos golpes; e o Ninjutsu, ataques poderosos que varrem a tela e podem derrotar vários inimigos ou casar muito dano a chefes. E com seu conjunto de mecânicas, Shinobi: Art of Vengeance está sempre nos incentivando a atacar os inimigos, especialmente no caso da barra de atordoamento, que esvaziará com o passar do tempo.

Já enquanto não estivermos lutando para sobreviver, teremos ferramentas variadas para alcançar certos pontos das fases, quando a exploração se faz mais presente.

Com uma campanha que dura entre 10 e 14 horas, sem passar a sensação de se alongar além do necessário, o título não esconde suas origens e até faz homenagens a seus entrepassados, como o estágio do surfe, mas busca inovar enquanto respeita o legado criado pela Sega em sua era de ouro.

Hoje a série pode não ter o apelo da época em que vimos o Shinobi III: Return of the Ninja Master chegar ao Mega Drive e encher de orgulho todos que possuíam aquele console. Mesmo assim, Shinobi: Art of Vengeance surge como um dos melhores lançamentos de 2025, restaurando a nossa paixão por um bom, desafiador e bonito jogo em 2D.

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Pai em tempo integral do Nicolas, enquanto se divide entre a comunicação pública e o Vida de Gamer, tenta encontrar um tempinho para aproveitar algumas das suas paixões, os filmes, os quadrinhos, o futebol e os videogames. Acredita que um dia conseguirá jogar todos os games da sua coleção.