Iniciada há quase três décadas, ao longo dos anos a franquia Resident Evil passou por muitas mudanças e, entre tantos experimentos, algo que dividiu os fãs são os ângulos de visão e o maior ou menor foco no terror. Embora algumas pessoas prefiram a câmera em terceira pessoa e capítulos com mais ação, outras gostam mais da imersão oferecida pela primeira pessoa, amplificando o medo. Diante deste cenário, com o Resident Evil Requiem a Capcom preferiu ousar, explorando ambas as opções e, no caso da câmera, deixando que o jogador escolha sua preferida.
Mas antes de falar sobre essas que são duas das principais novidades do 9º capítulo da série principal, é importante abordar sua história, pois ela justifica um recurso que poderia não ter dado certo.
Em Resident Evil Requiem teremos dois protagonistas: a analista do FBI, Grace Ashcroft, e o já popular Leon S. Kennedy. A história começa 28 anos após a destruição de Raccoon City, sucedendo os eventos de Resident Evil Village. Nela, a jovem é destinada a investigar uma cena de crime no Hotel Wrenwood e o que poderia ser apenas um procedimento de rotina imediatamente se mostra uma enorme barreira, já que foi naquele local em que a mãe de Grace foi assassinada. Paralelamente, Leon precisa lidar com uma infecção que ameaça sua vida, com a busca por uma cura fazendo com que o seu caminho cruze com o da outra protagonista.

Crédito: Capcom
Embora o enredo siga a linha temporal da franquia, abordando pontas soltas deixadas principalmente pelos Resident Evil 2 e 4, ele toma o cuidado para que novatos não se sintam perdidos, contextualizando muito do que está sendo mostrado. Porém, os fãs mais atentos perceberão uma referência aqui e outra ali, servindo quase como um presente. Outro ponto interessante é a maneira como a história é contada, pois ao alternar entre os dois protagonistas, acabamos sabendo mais do que cada um deles saberia individualmente. Esse estilo de narrativa normalmente me incomoda, mas aqui a ideia cria uma tensão verdadeira, com a troca de perspectivas gerando uma sensação de suspense que campanhas separadas provavelmente não conseguiriam criar.
Mas o fato de trazer duas histórias não chega a ser a principal novidade. Usando como argumento a personalidade de cada protagonista, Resident Evil Requiem nos entrega duas experiências bastante diferentes. Enquanto na pele de Grace teremos pela frente um survival horror, com recursos escassos e ambientes claustrofóbicos, com Leon partiremos para a ação, usando armas poderosas, desferindo golpes contra os infectados e estando no controle de alguém muito melhor preparado para a situação.
Essa dualidade pode ser percebida nos primeiros minutos da campanha, com Grace transparecendo sua insegurança — as vezes até irritantemente — e estando claramente desconfortável com a situação em que se encontra. Com ela também teremos que utilizar um item para coletar sangue infectado para produzir recursos. Já Leon nunca se esquiva do confronto, chegando a protagonizar uma perseguição cinematográfica nas ruas de uma movimentada cidade partindo para cima de monstros imensos.
A alternância também tem o ponto positivo de funcionar como uma válvula de pressão, nos deixando extremamente tensos com a Grace e “soltando as rédeas” com o Leon. Desta forma, nenhum dos estilos se torna maçante, um revigorando o outro.
Além disso, a Capcom acertou ao nos permitir escolher se jogaremos com a visão em primeira ou terceira pessoa. Embora ela recomende a primeira opção para Grace, já que favorece o terror, e a segunda para Leon, com o foco na ação, podemos encarar a campanha como acharmos melhor. Contudo, isso não afetará a estrutura da jogabilidade em si, com os recursos permanecendo escassos na parte survival horror e o combate corpo a corpo sendo fundamental na parte de ação.

Crédito: Capcom
Mas se há um quesito praticamente inquestionável em Resident Evil Requiem, é sua parte visual. Dos efeitos de iluminação à água, o jogo nos oferece uma fidelidade visual digna de derrubar queixos. O trabalho realizado pela equipe responsável pelo jogo impressiona, mesmo tendo jogado em um PlayStation 5 (não o Pro), parte também pela belíssima direção artística, com sua ambientação sombria e monstros assustadores.
Aliás, algumas das aberrações com as quais cruzamos pelo caminho estão entre as mais impressionantes que vi em um videogame, com aparências grotescas capazes de nos fazer sentir impotentes, principalmente quando estamos controlando a Grace. Só é uma pena que o vilão da história pareça subutilizado, sem nunca alcançar o potencial que demonstra desde o início.
Também senti falta de quebra-cabeças mais complexos, já que os desafios são, em sua maioria, muito óbvios e quase autoexplicativos. Não chega a ser um problema que comprometa a diversão, mas não acharia ruim se, vez ou outra, meu raciocínio fosse mais desafiado.
Também vale destacar a tentativa de agradar os fãs mais antigos. Da necessidade de gerenciar o inventário com o Leon à maneira como o Centro de Cuidados Crônicos de Rhodes Hill lembra a mansão do primeiro jogo, a escolha por nos levar de volta às ruas de Raccoon City foi acertada, principalmente por a atual tecnologia permitir recriar as ruínas do epicentro da pandemia.

Crédito: Capcom
Tanto tempo depois da sua estreia, uma franquia só permanece relevante com uma base dedicada de fãs, mas o ponto negativo nisso é que essas pessoas costumam ser muito exigentes. Embora eu acompanhe a série Resident Evil desde o primeiro lançamento (curiosidade: a conheci no Sega Saturn), estou longe de ser um ardoroso fã, tendo perdido minha admiração quando os capítulos principais se distanciaram do terror.
Foi só a partir do Resident Evil 7: Biohazard e sua menor atenção à ação que voltei a me interessar pela série e, por mais que o Resident Evil Requiem tenha uma porção estilo RE4, não terem ignorado aqueles que adoram terror foi o suficiente para me conquistar. Essa mescla de estilo também serve para mostrar que ambos os públicos podem ser atendidos, mas até por se tratar de um recurso que não foi implementado ao acaso, termos duas estruturas de jogo nos próximos capítulos parece improvável.
Mas é mera especulação da minha parte. O fato é que, com esse capítulo, a Capcom pode não ter inovado tanto quanto alguns esperavam, mas acertou ao entregar praticamente dois jogos distintos, pois mesmo se tratando de uma campanha relativamente curta, a diferenciação entre suas metades é significativa — e muito bem executada.
Portanto, a menos para aqueles que possuem aversão a jogos de terror, Resident Evil Requiem provavelmente será visto como mais um ótimo trabalho magistral da Capcom.