Fundada em 2010 em Varsóvia, eu só fui dar a devida atenção à 11 bit studios em 2014, quando a empresa lançou um jogo chamado This War of Mine. Inspirado no cerco de Sarajevo, aquele título nos colocava para sobreviver em uma cidade sitiada enquanto deveríamos tomar decisões morais. Quatro anos depois eles reforçaram esse talento em contar histórias intimistas e impactantes com o um ótimo jogo de estratégia e agora sua continuação, o Frostpunk 2, chega aos consoles. 

Crédito: Divulgação / 11 bit studios

Trazendo mudanças importantes que redefinem a experiência de sobrevivência urbana no mundo congelado criado pelo estúdio polonês, a narrativa de Frostpunk 2 se desenrola aproximadamente 30 anos após os eventos do jogo original, situando a ação por volta de 1916. O jogador assume o papel de um Dirigente, alguém eleito pelo conselho para liderar a metrópole em expansão de Nova Londres após a sobrevivência da colônia inicial do primeiro jogo. A história marca uma transição fundamental, pois enquanto o primeiro jogo focava na pura sobrevivência contra os elementos, a sequência transforma o conflito em uma luta ideológica pela sociedade. 

O mundo permanece coberto gelo, mas agora a luta não é apenas contra o frio e sim contra as próprias ideologias humanas. A população geral busca formar uma sociedade utópica, porém as visões específicas para esse conceito variam entre diferentes facções. Nos colocando diante de uma sociedade que não poderá ser apaziguada, o enredo explora temas de moralidade, política e a natureza sombria da humanidade, se estendendo por cinco capítulos e apresentando dilemas morais, incluindo permitir que idosos morram para preservar suprimentos alimentares, abandonar assentamentos pelo bem maior da cidade, ou usar violência para resolver conflitos entre facções. 

Salvando o mundo… 

Frostpunk 2

Crédito: Divulgação / 11 bit studios

Um dos principais destaque de Frostpunk 2 está quando ele nos coloca no meio de dilemas morais que surgiriam em um mundo pós-apocalíptico. Seu novo sistema de facções adiciona uma camada desafiadora de política ao gênero, onde cada grupo possui interesses diferentes, além do sistema de crenças que o jogador precisa balancear e explorar. 

O sistema de conselho também nos permite negociar com as diferentes facções para formar coalizões e aprovar a legislação via maioria de votos, uma mecânica que proporciona uma sensação de negociação em que todos estão buscando interesses próprios. O interessante é que eventuais falhas continuarão nos assombrando por bastante tempo, já que as consequências de nossas escolhas serão claras.

Mas se a complexidade política e moral contribuem para nos manter entretidos, há outros elementos que nos levam a dedicar dezenas de horas a este universo. Das escolhas política, econômicas e sociais feitas pelo jogador que levam a resultados drasticamente diferentes, à adição de um modo sandbox chamado Utopia Builder e que nos oferece liberdade para criar sem restrições narrativas, há muito o que experimentar em Frostpunk 2, como o modo Utopia, desbloqueado após completarmos a campanha e que expande consideravelmente o valor replay do jogo. 

Perdendo o mundo… 

Crédito: Divulgação / 11 bit studios

Uma das críticas mais significativas a este novo capítulo é a sensação da perda de intimidade em relação ao primeiro jogo. Enquanto o primeiro oferecia uma conexão emocional com cada habitante através do posicionamento de construções individuais, Frostpunk 2 amplia muito esse escopo, com os cidadãos substituídos por facções, cada uma com interesses diferentes. Agora não podemos mais selecionar pessoas individuais, mas a narrativa ainda inclui personagens como o engenheiro, que encontra melhorias. Ou seja, a importância dos indivíduos foi reduzida, com o foco narrativo direcionado para facções. 

Edifícios individuais foram substituídos por distritos criados sobre recursos espalhados pelo mapa, criando uma cidade desconectada, em oposição ao “organismo” menor e interconectado do primeiro jogo. 

Com o foco mudando da microgestão para o macrogerenciamento, os jogadores que buscam uma narrativa emocional por meio de histórias individuais podem achar a experiência mais insossa. Se por um lado a escala ampliada permite que tudo pareça mais ambicioso que o original, faz com que haja uma perda da intimidade característica da franquia ou do próprio estúdio — lembre-se do This Wars of Mine

Crédito: Divulgação / 11 bit studios

Frostpunk 2 é um jogo bonito, com os efeitos de iluminação dinâmica impressionando. Porém, isso cobra um preço alto conforme nossa cidade se expande. É possível ver quedas de frames em algumas partes, mas o que realmente me incomodou foi a interface. Conseguir enxergar as informações contidas nos textos — mesmo aumentando seu tamanho — será um desafio para quem possui problemas de visão (meu caso). 

Criado como um jogo para computadores, o estúdio até fez o possível para adaptar a interface para telas em que não estamos tão próximos, mas o resultado não me agradou. Também merece crítica a maneira como a jogabilidade funciona com controles, um problema recorrente em jogos de estratégias, mas que ao menos pode ser contornado com um pouco de prática. 

Graças ao sistema de menus radiais e a utilização dos botões dos ombros, podemos alternar entre distritos, abrir menus de construção ou verificar os recursos com relativa agilidade. É um avanço em relação ao anterior, mas ainda longe de ser tão prático quanto a dupla teclado e mouse, tão adorada para esse estilo de jogo. 

Frostpunk vs. Frostpunk 2 

Frostpunk 2

Crédito: Divulgação / 11 bit studios

Como dito anteriormente, a principal mudança em relação ao jogo anterior acontece na escala da simulação, que antes nos entregava um simulador de colônia e agora está mais próximo de um construtor de cidade. Enquanto Frostpunk apresentava uma única cidade que forçava o posicionamento cuidadoso de edifícios, um de cada vez, desenvolvendo conexões emocionais com cada habitante, Frostpunk 2 amplia drasticamente a escala. As populações são massivas e o jogador constrói enormes quantidades de edifícios de uma vez, liderando uma civilização ao invés de apenas uma colônia. 

Existe também uma diferença importante no número de recursos que devemos lidar constantemente. O primeiro jogo focava em recursos básicos como carvão, comida e madeira, enquanto a sequência introduz sistemas de recursos mais complexos e interconectados, com o gerenciamento de proximidade de construções permanecendo, mas agora cada edifício ocupa mais espaço em um layout de grade diferente, adicionando uma camada extra de complexidade. 

Por fim, Frostpunk 2 inverte completamente as prioridades de seu antecessor: um construtor de cidade estratégico primeiro e só depois um título de sobrevivência, adicionando leis em escala urbana que têm efeitos cascata, sistemas de facções e política interna da cidade. A exploração do ambiente também sofreu mudanças. Recursos e estabelecimento de postos avançados, crucial no jogo original, continuam presentes, mas com mais características. 

A versão de Frostpunk 2 para consoles é um trabalho ambicioso, que expande significativamente o escopo da franquia, trazendo complexidades políticas e morais profundas, mas sacrificando parte da intimidade emocional que tornou o original tão impactante. Apesar dos desafios técnicos e de controle, ele oferece uma experiência estratégica rica e moralmente desafiadora, especialmente se você procura um jogo de gerenciamento de cidades que não se limite a exigir a construção de ruas e prédios enquanto nos preocupamos apenas em não deixar os cofres entrarem no vermelho.

Masculino
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Pai em tempo integral do Nicolas, enquanto se divide entre a comunicação pública e o Vida de Gamer, tenta encontrar um tempinho para aproveitar algumas das suas paixões, os filmes, os quadrinhos, o futebol e os videogames. Acredita que um dia conseguirá jogar todos os games da sua coleção.