Muito menos comuns do que eu gostaria, os cinematic platformers são jogos que tentam nos colocar no meio de aventuras grandiosas, em que a física é a mais realista possível e os quebra-cabeças costumam aparecer em grande quantidade. Em obras assim, a fragilidade do protagonista é outra característica comum e, por isso, Darwin’s Paradox não poderia ter apostado em um herói melhor: um polvo!
Desenvolvido pelo estúdio parisiense ZDT Studio em parceria com a Konami, o título para PlayStation 5, Xbox Series X/S, Nintendo Switch 2 e PC se destaca por diversos motivos, começando pela sua ambientação.

Crédito: ZDT Studio
No jogo, Darwin é um pequeno polvo que acaba capturado no oceano e levado às instalações da UFOOD, uma megacorporação do setor alimentício que o vê apenas como o principal ingrediente da próxima comida enlatada a ser produzida em larga escala.
Porém, apesar de o objetivo inicial ser um tanto simples — sobreviver e escapar —, aos poucos perceberemos que há algo muito maior por trás daquela companhia. Com funcionários que claramente não são humanos, na pele daquele polvo azul assistiremos ao desdobramento de um plano perturbador, uma conspiração silenciosa que coloca a humanidade em risco.
Um ponto positivo de Darwin’s Paradox é conseguir contar uma história interessante, divertida e grandiosa sem usar uma linha de diálogo. Toda a saga do protagonista e a ameaça aos seres humanos são passadas apenas pela linguagem corporal do simpático molusco e da narrativa por meio do ambiente (environmental storytelling).
Ao lado da direção artística bastante colorida, o comportamento de Darwin inevitavelmente nos faz associar o título às animações de Hollywood, especialmente as da Pixar. E aqui vale uma observação: a ZDT Studio merece elogios por apostar em uma atmosfera leve, algo muito diferente do que vimos em outros jogos do gênero, como Limbo, Deadlight ou Reanimal.
Contudo, a narrativa falha em não se aprofundar no passado do protagonista. Darwin’s Paradox poderia aproveitar melhor os flashbacks, o que seria um bom motivo para nos colocar mais tempo embaixo d’água. Assim, não sabemos qual a relação do polvo azul com outras criaturas que aparecem ao longo da jornada, ou por que deveríamos nos importar além do mero instinto de sobrevivência.
Também lamento a maneira como a história termina abruptamente, mas talvez esses problemas se justifiquem pelo provável baixo orçamento do projeto. De qualquer forma, não consegui deixar de desejar que a subida dos créditos não passasse de uma trollagem e que no final eu teria a oportunidade de jogar mais um pouco para ver o desfecho de uma história tão bacana.

Crédito: ZDT Studio
Mas se os desenvolvedores poderiam ter caprichado um pouco mais no enredo, não há o que reclamar da parte audiovisual.
Com cenas não interativas que não diferem de qualquer grande produção lançada no cinema, mesmo a animação de Darwin durante a jogabilidade impressiona, sendo fluida e expressiva, comunicando emoção e personalidade sem precisar de uma única palavra.
Além disso, temos ambientes detalhados e iluminação convincente para um jogo em duas dimensões, o que infelizmente cobra um preço em algumas transições de tela. As quedas de framerate nessas passagens são notáveis, ao menos no Nintendo Switch 2, onde encarei a aventura. Outro problema são os tempos de carregamento. Em um jogo que funciona muito na base da tentativa e erro, ter que esperar alguns segundos para retornar à ação quebra o ritmo, o que acaba sendo um ponto contra.

Crédito: ZDT Studio
E essa quebra também acontece devido a uma das principais mecânicas do Darwin’s Paradox: o sistema de furtividade. Entre as habilidades de Darwin está sua capacidade de se camuflar com o ambiente. Isso lhe permite ficar invisível às câmeras, holofotes e linha de visão dos inimigos. O problema aqui não está na dificuldade, mas na passividade da experiência.
Ter que aguardar o momento certo para passar por certos trechos é uma mecânica que funciona melhor quando há tensão emocional para sustentá-la. Aqui, o tom leve e descompromissado da produção trabalha contra o design de stealth. Digo isso por achar difícil sentir nervosismo numa estética que remete a um desenho animado. Exceto pela parte hilária que faz referência a um clássico da indústria, não posso dizer que a ideia me conquistou — mesmo sendo justificável, afinal, controlamos um polvo.
No entanto, se a jogabilidade falha nesta parte, ela acerta em todo o resto. Com o estúdio tendo feito o dever de casa ao estudar o comportamento de um polvo e como isso poderia ser transformado em um jogo, o resultado é um sistema de habilidades que soa orgânico e natural.
Além da já citada camuflagem, Darwin pode escalar praticamente qualquer superfície com suas ventosas, nadar em águas não contaminadas e atirar tinta (com comportamentos diferentes dentro e fora d’água). Fora d’água, a tinta funciona como um projétil capaz de desativar caixas de eletricidade e interagir com elementos do cenário. Na água, ela se transforma num jato que cria cortinas de invisibilidade temporária.
As habilidades são desbloqueadas de forma progressiva ao longo da campanha, justificadas narrativamente por um golpe na cabeça que faz Darwin esquecer temporariamente quem é. Assim, à medida que o herói avança, recorda essas capacidades. É um recurso narrativo simples, mas funcional, que mantém o ritmo sem sobrecarregar o jogador logo de início.
Já o level design flui de forma contínua, sem telas de carregamento entre os ambientes, com o título costurando as fases de forma orgânica, como se fosse um filme sem cortes bruscos. Os cenários vão desde fábricas industriais até galerias de esgoto, nos colocando ainda em ruas movimentadas à noite sob chuva e em profundezas aquáticas, com cada cenário exigindo combinações diferentes das habilidades disponíveis.

Crédito: ZDT Studio
Ao reunir uma equipe formada por profissionais que passaram tanto pela indústria de videogames quanto pela do cinema, Darwin’s Paradox buscava servir como um elo entre os longas-metragens animados e os jogos eletrônicos. E eles conseguiram.
Ver um cinematic platformer que nos coloca numa ambientação tão colorida e com uma história mais leve foi uma grata surpresa, mas o que mais me encantou na saga do pequeno Darwin foi o próprio protagonista; afinal, não é todo dia que podemos controlar um simpático polvo cujas características físicas foram tão bem utilizadas em prol da jogabilidade.
Espero um dia poder continuar encarando sua aventura, e não só por essa primeira parte terminar de forma tão abrupta, mas por acreditar que, com mais dinheiro, tempo e experiência, o ZDT Studio poderá nos entregar algo ainda mais fantástico do que vimos nessa estreia.