Sempre fui uma pessoa que pendeu para o lado Street Fighter, mas isso nunca me impediu de admirar a SNK e seus fantásticos jogos de luta. Deles, o Garou: Mark of the Wolves foi um que me despertou uma mistura de encanto e intimidação, dada sua complexidade. Eis que, mais de duas décadas e meia depois, a empresa resgata a série com o Fatal Fury: City of the Wolves, título que ao exigir muita dedicação para ser dominado, voltou a me assombrar.
A nova história retoma diretamente os eventos do jogo anterior, abordando as consequências da queda do chefe do crime Geese Howard sobre South Town. Terry Bogard, após derrotar Geese em um confronto lendário, assumiu a responsabilidade de criar Rock Howard, o filho do vilão. Então, com o passar dos anos, Rock escolhe trilhar o próprio caminho em busca da mãe que acreditava ter perdido para sempre. A tensão aumenta quando um novo torneio é convocado em South Town, prometendo como prêmio o legado herdado de Geese, uma bela desculpa para reunir velhos rivais e novos lutadores ao redor desse espólio.
O enredo será contado pelo modo Arcade e pelo modo Episódios de South Town, em que cada personagem tem seu próprio arco. Embora a história não costume receber muita atenção em jogos de luta, City of the Wolves utiliza a narrativa para apresentar cada lutador e suas motivações, mantendo-nos interessados em cada “novela”.

Crédito: SNK
Essas histórias se mostram mais interessantes em Episódios de South Town, em que poderemos explorar a cidade e nos envolver em combates com diversos lutadores… e objetos (!). Voltado a quem gosta de jogar sozinho, ele conta com elementos de RPG e foi inspirado no World Tour de Street Fighter 6. No modo, cada personagem possui seu próprio arco narrativo curto para ser explorado — exceto pelo Cristiano Ronaldo (que, convenhamos, nem ele nem o DJ Salvatore Ganacci deveriam estar no jogo).
O mapa de South Town é dividido em três regiões desbloqueadas progressivamente, com cada uma oferecendo encontros com diferentes dificuldades. Ao vencer batalhas, o jogador ganha experiência, sobe de nível e desbloqueia habilidades, que funcionam como modificadores de combate que podem ser equipados. Vale dizer que as habilidades desbloqueadas por um personagem ficam disponíveis para toda a equipe e podem ser combinadas entre si — uma forma de incentivo a explorar múltiplos personagens.
Cada região conta com Estágios Secretos, identificados por um som característico ao aproximar o cursor e que revelam um ícone laranja escondido no mapa. Esses encontros têm mecânicas incomuns: o adversário tem 1/66 de chance de receber 9.999 de dano em qualquer golpe; fora isso, ele recebe zero dano, independentemente do ataque. Ou seja, a melhor estratégia é partir para o ataque, pois, ao vencer, seremos recompensados com uma grande quantidade de experiência.

Crédito: SNK
O enredo de Fatal Fury: City of the Wolves pode merecer elogios, mas não resta dúvida de que a sua principal qualidade está no sistema de combate. Sua estrutura central gira em torno do Sistema REV, uma abordagem de risco e recompensa que, de certa forma, substitui as tradicionais barras de super.
Funciona assim: o medidor REV começa vazio no início de cada round e aumenta conforme o jogador usa ações REV ou bloqueia ataques do adversário. Ele diminui com o tempo e ao golpear o oponente. Se o medidor chegar a 100%, o personagem entra em estado de Overheat, perdendo acesso a todas as ações REV e ficando vulnerável a quebras de guarda caso continue bloqueando. Por outro lado, acertar um Hidden Gear remove instantaneamente o Overheat e zera o medidor.
A novidade então se desdobra em três partes, são elas:
- REV Arts: são as versões melhoradas dos golpes especiais de cada personagem, executadas adicionando o botão REV ao comando normal do especial. Eles causam mais dano e têm propriedades extras. Usá-los aumenta o medidor REV, então o jogador precisa decidir quando vale a pena o risco.
- REV Accel: é a mecânica de cancelar um REV Art diretamente em outro REV Art, criando sequências de golpes especiais encadeados. O segredo aqui está no timing, já exige muita precisão.
- REV Guard: é a versão do sistema de empurrão de bloqueio do jogo, criando distância ao defender um ataque e anulando dano. Pode ser mantido pressionado, mas quanto mais tempo for usado, mais o medidor REV sobe.

Crédito: SNK
Além disso, City of the Wolves conta com diversas outras técnicas que poderão mudar o rumo de uma partida apenas utilizando a defesa na hora certa, como Just Defense, Hyper Defense, Breaks e Feints. Já para os ataques, duas se destacam:
- S.P.G. (Super Power Gauge): antes de cada batalha, definimos em qual terço da barra de vida o S.P.G. estará localizado: no início, meio ou final. Logo, o posicionamento do S.P.G. tem implicações estratégicas nas lutas, pois se colocarmos no terço inicial, teremos acesso imediato às habilidades extras, mas será difícil usar o Hidden Gear; já no terço final, ele servirá como uma mecânica de recuperação, porém talvez não tenhamos a chance de ativá-lo no caso de sofrermos um combo pesado muito cedo. Mas independentemente de onde escolher posicionar o efeito, quando a vida do personagem alcançar esse segmento específico, duas habilidades exclusivas são desbloqueadas:
- REV Blow: um ataque com algum nível de invencibilidade e que pode ser executado também no ar.
- Hidden Gear: o ataque especial mais poderoso do jogo, que consome os dois medidores de super, mas reinicia completamente o medidor REV.
- Ignition Gear: é um golpe especial superpoderoso que consome uma fatia da barra de força do personagem.

Crédito: SNK
Fatal Fury: City of the Wolves conta ainda com os Counter Hit e Wild Punish, técnicas de contra-ataque que se baseiam em explorar a vulnerabilidade do oponente enquanto ele tenta nos acertar. No caso do segundo, isso acontece ao atacar o adversário durante os frames de recuperação de um ataque, o que abre espaço para os combos mais devastadores do jogo e, obviamente, é bastante difícil de ser aplicado.
Por fim, temos as trocas de planos, algo que os fãs mais antigos de Fatal Fury se lembrarão. Com elas, a qualquer momento durante uma luta, podemos mover o personagem entre o plano da frente e o plano do fundo, criando uma dimensão extra de mobilidade e espacialidade que não existe em outros jogos de luta 2D convencionais.
O sistema nos permite executar um afastamento de plano no meio de um combo e, em seguida, dar continuidade com um salto de plano, criando sequências que exploram a profundidade do cenário. Novamente, apenas os jogadores mais habilidosos conseguirão explorar o recurso totalmente.

Crédito: SNK
Na parte visual, City of the Wolves adota a tática de outros jogos de luta com gráficos em 3D no estilo cel shading, o que nos passa a sensação de estarmos vendo uma revista em quadrinhos em movimento. Essa é uma aposta que tem dado certo, pois funciona como uma modernização da época das pixel art.
A trilha sonora remete à era de ouro dos arcades e gostei bastante da jukebox disponibilizada, já que ela nos permite ouvir as músicas de outros clássicos da SNK e até mesmo da série Street Fighter. Ponto para a desenvolvedora por acertar com um recurso que muitas outras preferem ignorar.
Portanto, assim como aconteceu com o seu antecessor, considero impossível olhar para o Fatal Fury: City of the Wolves e não me sentir intimidado. Sim, eu consigo aproveitar algumas partidas nele e me divertir ao acertar golpes poderosos (ou passar muita raiva ao ser massacrado). Porém, esse é o tipo de jogo para o qual sempre olharei com extrema admiração (e espanto) ao assistir a uma partida travada entre dois ótimos jogadores.
Infelizmente, hoje não tenho nem tempo nem paciência para me dedicar a algo tão complexo. Mas graças aos seus dois ótimos modos single-player (Arcade e Episódios de South Town), vez ou outra poderei aproveitar alguns minutos neste excelente jogo de luta da SNK. As partidas multiplayer deixarei para os melhores lutadores.