Dos diversos estilos oferecidos pelos shoot ‘em up, aquele que sempre mais me agradou são os jogos com progressão horizontal. Mesmo sem saber explicar o motivo para essa preferência, qualquer título com essa característica chama minha atenção e se ele carrega o nome da minha franquia favorita, seria natural criar uma expectativa e com o R-Type Dimensions III não foi diferente.
Com versões para PlayStation 5, Xbox Series, Nintendo Switch, Switch 2 e PC, o projeto foi liderado pelo estúdio alemão Kritzelkratz e publicado pela ININ Games, em parceria com a Tozai Games e a IREM (detentora original da licença). Sua ideia era revisitar completa o clássico R-Type III: The Third Lightning para Super Nintendo com gráficos 3D modernos e uma série de recursos de acessibilidade que tentam equilibrar tradição e praticidade para o jogador contemporâneo.

Crédito: Kritzelkratz
Mantendo uma narrativa de ficção científica sombria e carregada de tensão existencial típica da série, em R-Type Dimensions III, a premissa se aprofunda ainda mais nesse universo opressivo. Nele, estamos em um futuro distante, onde a humanidade criou deliberadamente uma forma de vida biomecânica como arma de guerra, algo que ficaria conhecido como Império Bydo. O problema é que o experimento saiu do controle e agora, os Bydo existem numa dimensão além do espaço convencional, tentando invadir e absorver a realidade humana de forma contínua.
Após múltiplas guerras e eventos de quase extinção, os Bydo retornam mais fortes, mais adaptados e agressivos do que nunca. Para enfrentar essa ameaça, o Corpo Espacial da Terra desenvolve uma nova nave de última geração: a R-90 Ragnarok, herdeira direta das lendárias aeronaves R-Type das gerações anteriores. Como piloto, você é enviado a zonas hostis que alternam entre o espaço normal e a dimensão distorcida dos Bydo, com a missão de destruir as redes centrais do império e seu núcleo, antes que a ameaça acabe com a humanidade. Sem revelar detalhes dos bosses ou do clímax, basta dizer que o jogo mantém a tradição da série de misturar horror cósmico com design de fases opressivo e memorável.
Mas para entender a existência do R-Type Dimensions III, é importante contextualizar a sua inspiração. Lançado originalmente em 1993 para o console de quarta geração da Nintendo, o título se tornou raro e caro — chegando a ser vendido por algumas centenas de reais no mercado de usados do SNES — e frequentemente confundido com Super R-Type, um jogo diferente e muito mais acessível. Isso o tornou uma espécie de joia escondida entre os fãs da franquia, apreciada por quem teve a sorte (ou o bolso) de jogá-lo na época.

Crédito: Kritzelkratz
A série R-Type Dimensions, iniciada com o primeiro jogo de mesmo nome e seguida pelo Dimensions EX (que reunia remakes dos dois primeiros R-Types), sempre funcionou como um arquivo vivo da franquia. Contudo, com o Dimensions III, a Kritzelkratz e a ININ Games optaram por cobrir apenas este título específico, fazendo com que o seu preço seja questionável.
Para quem não conhece, R-Type é um “jogo de navinha” com nível de dificuldade elevado. Esta nova versão segue a fórmula clássica da série, nos colocando para navegar horizontalmente por cenários hostis, com uma nave que possui um módulo de força (Force) que pode ser destacado para funcionar como canhão frontal, traseiro ou como uma pastilha flutuante ao redor da nave. A escolha do power-up é feita antes da partida, e ao iniciarmos uma fase, será pura habilidade, reflexo, paciência e memorização de padrões dos inimigos.
A dificuldade é impiedosa, já que um único toque mata instantaneamente. Para amenizar isso, o jogo inclui um modo de vidas infinitas, tornando a experiência mais acessível sem alterar o design dos níveis em si — mas sem garantir nossa pontuação no placar ou o desbloqueio de conquistas. O design das fases é desafiador e muito bem construído, um dos melhores da série, embora a quantidade de detalhes possa tornar a nossa missão ainda mais difícil.

Crédito: Kritzelkratz
A possibilidade de jogar na companhia de outra pessoa é um recurso que merece ser comemorado. Por outro lado, a impressão de o “remake” contar com um hitbox maior tem sido motivo de críticas, já que o aumento da área em que a nave não pode ser atingida acaba gerando mortes frustrantes e tornando o anaço pelas fases uma tarefa ainda mais árdua.
Toda a apresentação visual foi reconstruída do zero com gráficos 3D de alta qualidade, animações aprimoradas e ambientes ricos em detalhes. O recurso mais divertido é a possibilidade de alternar em tempo real entre os gráficos modernos 3D e os visuais originais do SNES — uma ferramenta que, além de ser ótima para a nostalgia, permite comparar as duas eras em tempo real. Há ainda uma câmera inédita que muda levemente a perspectiva 3D, dando uma sensação de profundidade incomum para um shooter lateral. Eu queria ter gostado mais da novidade, mas talvez pela falta de costume, não conseguir achar confortável jogar com essa perspectiva.
Na parte sonora, o destaque absoluto é a trilha musical composta por Eric Krause. Tanto a versão clássica 16-bit quanto o arranjo moderno estão presentes, e o jogo roda com framerate estável e suave.

Crédito: Kritzelkratz
Por se tratar de uma recriação que tenta ser fiel ao original, o que a própria desenvolvedora faz questão de salientar, talvez os mais puristas prefiram tratar o R-Type Dimensions III como uma remasterização e não um remake. De qualquer forma, essa é um muito bem-vindo novo olhar sobre um clássico que permaneceu escondido no Super Nintendo por 30 anos.
Se olharmos para essa nova versão como uma homenagem, é possível descrevê-la como sólida e bem executada. Talvez o novo visual em três dimensões não lhe agrade, mas a poder alternar entre os gráficos originais e modernos se mostra mais do que um bônus, e sim uma maneira de vermos como a parte visual dos games evoluiu durante essas mais de três décadas.
Para quem ama a franquia, o jogo é uma oportunidade histórica de jogar R-Type III com visuais modernos e sem se preocupar com cartuchos raros e caríssimos. Já para quem busca uma experiência renovada, ele pode decepcionar pelo conteúdo relativamente enxuto e pelo preço elevado. No fim das contas, R-Type Dimensions III se posiciona como uma escolha recomendada para os fãs do gênero, mas desde que as expectativas estejam devidamente calibradas.