Quando um jogo permanece em desenvolvimento por muitos anos e sofre diversos adiamentos, isso pode significar que o projeto se perdeu ao longo do caminho e a expectativa gerada não será correspondida. Felizmente, este não é o caso com o último lançamento da Capcom, o excelente Pragmata.
Primeira nova propriedade intelectual da desenvolvedora japonesa em quase uma década, o título reafirma o momento espetacular vivido pela empresa e mostra que a ousadia pode render bons frutos, mesmo considerando todo o risco relacionado a projetos de grande porte.

Crédito: Capcom
Pragmata acontece em um futuro distante, no qual a humanidade descobriu na Lua um recurso raro chamado lumen. Utilizado para a produção de lunafilamentos, o material permitiu à corporação Delphi construir e replicar estruturas inteiras por impressão 3D, incluindo uma enorme base lunar. Quando essa base cai em silêncio repentinamente, a Delphi envia uma equipe de investigação.
No papel de um auditor de sistemas da corporação chamado Hugh Williams, que vê os membros de sua equipe morrerem após um terremoto, no meio do caos seremos resgatados por um androide cuja aparência remete a uma criança. O objetivo então passa a ser descobrir o que está acontecendo na instalação e, claro, encontrar uma forma de escapar do lugar.
Embora não revolucione a ficção científica, a história cumpre seu papel, com a narrativa não recaindo exclusivamente sobre o conflito com a IA antagonista chamada IDUS, que, vale dizer, não é explorada a ponto de nos causar repulsa ou mesmo alguma simpatia. Aqui, o ponto alto fica com a relação entre o protagonista e a pequena androide Diana, no jogo descrita como um… pragmata. Conforme avançamos pela base lunar, a dinâmica de pai e filha cresce de forma orgânica e emocionante ao longo das cerca de 15 horas de campanha.

Crédito: Capcom
Quando soube que a missão se passaria apenas na Lua, fiquei preocupado com a repetição, pois deduzi que ficaríamos apenas indo de uma sala com tons claros para outra. Porém, ao implementar a ideia dos lunafilamentos, a Capcom permitiu que a criatividade tomasse conta; afinal, o recurso permite que quase qulauqe coisa seja impressa.
Na prática, isso significa que os funcionários da Delphi poderiam personalizar a base lunar como quisessem, o que não quer dizer apenas um objeto decorativo aqui ou ali. Não darei detalhes sobre os lugares que visitaremos no jogo, mas você pode esperar desde grandes cidades a lugares que serviriam como ótimos refúgios durante algum feriado aqui na Terra.
Desta forma, exceto por erros na impressão que parecem glitches no cenário, por alguns momentos esqueceremos que estamos a centenas de milhares de quilômetros do nosso planeta. A ideia é brilhante, pois, além de garantir que uma área da base seja bastante diferente da outra, ajuda a demonstrar o nível tecnológico alcançado pela humanidade.

Crédito: Capcom
Mas o grande diferencial de Pragmata está no seu sistema de combate, que consegue inovar em um gênero em que novas ideias demoram tanto para surgir — especialmente quando se trata de um projeto AAA.
Nele, Hugh ficará responsável por manejar o armamento e se locomover pelo cenário usando propulsores, enquanto Diana terá que utilizar suas habilidades como uma máquina para hackear os inimigos.
O que torna o sistema tão divertido e desafiador é o fato de ambas as ações acontecerem simultaneamente. Como os inimigos possuem uma armadura que torna os tiros praticamente ineficazes, teremos que desativar essa proteção, o que será feito em tempo real.
O hackeamento funciona como um minigame, em que guiamos um cursor por um painel com os botões do controle. No caminho, teremos que desviar de obstáculos e ativar bônus que nos darão vantagens, tudo enquanto controlamos o protagonista para desviar dos ataques.
Num primeiro momento, essa mecânica que une atirar e hackear pode parecer muito complicada, mas, aos poucos, tudo passa a funcionar de forma natural, mesmo com o sistema ficando gradativamente mais complexo. Isso acontece pois, conforme o jogo avança, novos tipos de nodos de hacking são desbloqueados liberando efeitos distintos, como fazer um inimigo atacar os próprios aliados, hackear múltiplos inimigos ao mesmo tempo, superaquecer o adversário para acionar uma finalização devastadora ou paralisar grupos inteiros. A combinação dessas ferramentas com as armas de Hugh acaba garantindo que o combate evolua durante a campanha.

Crédito: Capcom
Pragmata foi produzido com a RE Engine, mesmo motor que a Capcom utiliza na série Resident Evil, e o resultado impressiona. O “mundo” mostrado nele possui um ótimo nível de detalhes, mesmo em espaços maiores, e o desempenho é consistente, embora mostre alguns serrilhados ocasionalmente.
A direção artística consegue transmitir uma atmosfera perturbadora sob uma normalidade aparente, com os robôs inimigos contando com designs interessantes, principalmente quando se trata dos chefes (que também merecem elogios por serem variados e exigirem algum raciocínio para serem derrotados).
E numa indústria que costuma ser tão criticada pela falta de criatividade e ousadia dos grandes estúdios, Pragmata surge como um oásis, uma boia de salvação para as pessoas que ainda acreditam que ainda é possível ser surpreendido com um videogame. Do inovador sistema de combate à tocante relação entre Hugh e Diana, a Capcom conseguiu consolidar seu nome como uma das melhores desenvolvedoras da atualidade.
Alguém poderá reclamar que a campanha é muito curta ou que a progressão é exageradamente linear, mas não vejo esses fatores como pontos negativos. Na ânsia de entregar experiências cada vez maiores, alguns criadores acabam esquecendo que algo mais enxuto e com conteúdo pode ser tão ou até melhor que um gigantesco mundo virtual vazio e sem “alma”. E Pragmata mostra isso muito bem.
Eu só gostaria que a IDUS fosse mais interessante e que o universo do jogo tivesse sido melhor explorado. No entanto, esses pequenos problemas não chegam a prejudicar a satisfação que senti ao enfrentar as muitas ameaças encontradas na Lua — e quem sabe, continuações não venham por aí, talvez nos levando para uma estação espacial, para outro planeta ou até mesmo de volta à Terra. Agora que descobrimos os lunafilamentos, tudo é possível!