Devido à sua natureza competitiva, nos habituamos a ver os videogames como um meio em que estamos nos preocupando em não sermos abatidos, ou estamos buscando derrotar algum inimigo. Essa briga de gato e rato se tornou tão natural que, quando um jogo como o Origament: A Paper Adventure chega às lojas, se torna desafiador não sentirmos uma ponta de surpresa.

Desenvolvido pelo Space Sauce Studio, este jogo independente nasceu de uma premissa simples, mas que resultou em um título carregado de simbolismo. Nele seremos uma carta, uma mera folha de papel que ganha vida e assim teremos uma missão importante pela frente.

Tudo começa no Arquivo da Memória, um lugar etéreo repleto de pensamentos que se dissipam, onde palavras nunca ditas e correspondências que jamais chegaram ao seu destino residem. As cartas dormem em gavetas intermináveis, esquecidas, mas não perdidas. Em meio a esse limbo de papéis, uma carta específica desperta com uma centelha estranha dentro de si, o suficiente para fazê-la tremer e ganhar consciência.

Crédito: Space Sauce Studio

Na mesma noite, uma anomalia temporal chamada de Time Glitch surge no Arquivo e a carta desaparece. Contudo, ela não foi roubada: escapou. Mas, como em algum lugar o destinatário ainda espera, a jornada tem início.

Longe de tentar ser grandiosa, a história abraça a leveza, adotando tons nostálgicos e emocionais que vão se revelando conforme avançamos pelos diferentes capítulos e eras históricas. A premissa de uma carta tentando chegar ao seu destino tem algo de simples, quase poético. E, justamente por não exagerar, acaba funcionando melhor. É uma história que parece falar de memória, distância e intenção.

Eventualmente até nos deparamos com uma ou outra ameaça, mas em Origament: A Paper Adventure não há vilões ameaçadores nem conflitos épicos. Com uma narrativa mais delicada, o foco estará em sermos encontrados por quem nos escreveu.

Mas, se a ambientação merece elogios, a principal qualidade da obra recai mesmo em sua mecânica. Nele seremos capazes de nos transformar em quatro formas de origami, cada uma com física e habilidades únicas:

  • Bola de papel — rola pelo chão, pode empurrar objetos e acessar espaços estreitos
  • Barco de papel — navega por superfícies aquáticas e correntes
  • Avião de papel — plana pelo ar, alcançando plataformas elevadas
  • Shuriken (estrela ninja) — gira em alta velocidade, ativa mecanismos e quebra obstáculos

Crédito: Space Sauce Studio

A troca entre formas é fluida e, na prática, funciona como o eixo de todos os quebra-cabeças. Não existe combate. Zero. O jogo é completamente construído em torno de exploração, observação e adaptação criativa ao ambiente. Logo, quem busca uma experiência de ação provavelmente ficará frustrado; aqueles que entenderem (e aceitarem) encontrarão uma experiência mais meditativa e satisfatória.

Já o que aumentará o fator replay é o fato de as fases terem múltiplos caminhos, com moedas escondidas em locais de difícil acesso e segredos que exigem a experimentação de todas as formas antes de encontrar o caminho certo. Há também algumas side quests leves, vindas de NPCs espalhados pelos cenários, dando aquela sensação de um mundo habitado e vivo.

Também merece destaque a direção artística de Origament: A Paper Adventure. Os ambientes são construídos para parecer dioramas artesanais, com cada fase evocando uma época histórica diferente. Templos japoneses com lanternas, canais de Veneza, uma cidade do Velho Oeste com portas de saloon rangendo… Enfim, cada cenário é montado com um nível de atenção e carinho visível. O estilo visual inspirado em origami não é apenas cosmético, já que se conecta diretamente à mecânica central do jogo. Por sua vez, a trilha sonora contribui para tornar a experiência mais fantástica, com ela se adaptando ao ritmo e ao ambiente de cada era.

Infelizmente, por enquanto a obra está disponível apenas para PC. Isso reduz bastante o seu alcance e me deixou pensando como um jogo assim casaria perfeitamente com o Switch. Se os objetos em que nos transformamos pudessem ser controlados com o sensor de movimentos do videogame da Nintendo, talvez o Origament: A Paper Adventure se tornasse ainda mais divertido.

Como ponto negativo, eu também citaria a dificuldade quase inexistente, o que contribui para tornar a progressão entediante em alguns momentos. Dos quebra-cabeças às plataformas, a campanha é mais tranquila que qualquer passeio pelo parque, com a curta duração pesando contra o jogo.

Crédito: Space Sauce Studio

Origament: A Paper Adventure é daqueles jogos que conquistam primeiro pelo charme e só depois pela proposta. À primeira vista, ele parece só mais um indie bonitinho com visual artesanal, mas basta avançar alguns minutos para perceber que existe uma ideia muito bem amarrada por trás de tudo: transformar o papel em linguagem de jogo. E isso não é só um truque visual, é o coração da experiência.

Seu maior acerto é a coerência. Tudo nele conversa com a mesma ideia: você é uma carta em um mundo de papel, então faz sentido que o movimento, os cenários e até a lógica dos puzzles sejam construídos em torno dessa fragilidade elegante. A mecânica de alternar entre formas de origami é simples de entender, mas tem personalidade suficiente para não parecer genérica. Não é o tipo de sistema que te faz pensar “uau, nunca vi nada parecido”, mas é o tipo de coisa que, quando encaixa, te faz sorrir porque faz muito sentido.

Sabendo exatamente o seu lugar no mercado, onde nunca conseguiria competir com os arrasa-quarteirões financiados pelas grandes editoras, o jogo abraça sua identidade com confiança e entrega uma aventura pequena, mas que transparece o carinho dos seus criadores. Origament: A Paper Adventure é perfeito para quem quer descansar a cabeça depois de um dia longo sem largar o controle.

Para os fãs de jogos que misturam quebra-cabeça com plataforma de forma criativa ou que simplesmente entregam uma direção de arte bem executada, esta será uma boa adição à biblioteca.

Masculino
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Pai em tempo integral do Nicolas, enquanto se divide entre a comunicação pública e o Vida de Gamer, tenta encontrar um tempinho para aproveitar algumas das suas paixões, os filmes, os quadrinhos, o futebol e os videogames. Acredita que um dia conseguirá jogar todos os games da sua coleção.