Com o avanço da tecnologia, nos habituamos a jogar títulos com mundos cada vez maiores e detalhados. Algumas empresas até passaram a se orgulhar por criar mapas com dezenas, centenas de km², quando, em muitos casos, eles não eram muito mais do que cenários vazios ou repletos de missões pouco inspiradas. Mesmo assim, algumas desenvolvedoras preferem seguir o caminho inverso, como é o caso dos brasileiros Behold Studios o seu recém-lançado Deep Dish Dungeon.
Contando com versões para PC e Xbox Series X|S, o título, que à primeira vista pode parecer apenas um dungeon crawler, pode ser descrito de forma mais simples como um jogo com elementos de sobrevivência e Metroidvania que se passa em um calabouço desenhado à mão e que pode ser explorado tanto sozinho quanto acompanhado de mais dois amigos.

Crédito: Divulgação / Behold Studios
Mas isso não é suficiente para explicar por que este é um jogo recomendável. Nele, acordaremos em um calabouço, sem saber ao certo como fomos parar no local, e a sensação de estarmos perdidos, sem muita noção do que fazer e para onde ir, será uma constante.
A principal característica (e qualidade) de Deep Dish Dungeon é mesmo a sua filosofia de informação. Nele não temos um tutorial explícito, marcadores de missão ou mesmo um mapa. O jogo quase não explica nada e deixa com que tenhamos que deduzir o que fazer, e o resultado é um calabouço que nos recompensa por pensar de forma criativa. Quando esse sistema funciona, os atalhos aparecem e a geografia interna vai se revelando como uma rede de corredores que se retroalimentam. Mas, quando falha, faz com que a dúvida sobre a falta de um item ou possibilidade de não termos visto alguma passagem se torne um tormento.
Algumas pessoas poderão encarar essa opção de design como uma falha. Já para quem gosta de imersão e vem sendo forjado nos games há muitos anos, esse alto nível de paciência exigido compensará pela recompensa prometida no fim do arco-íris.
Parte dessa imersão proporcionada também deve ser creditada à simulação de física e aos quebra-cabeças baseados nela. Com tábuas, caixas, cordas, fogo e água servindo para alcançar a próxima área, conseguir ultrapassar alguns obstáculos dependerá da nossa criatividade — e habilidade, já que a manipulação dos objetos é um pouco desajeitada —, não de uma resposta pronta, uma seta imensa indicando a direção ou algum NPC para nos soprar a solução.

Crédito: Divulgação / Behold Studios
Outro ponto importante da jogabilidade de Deep Dish Dungeon está no ciclo de sobrevivência. Sempre que renascermos no calabouço, o ideal será cozinhar alguma comida, pois desta forma receberemos alguns bônus em relação a alimentos crus. Então partiremos em busca de itens que poderão ajudar nossa jornada, enquanto muitos monstros tentarão nos aniquilar, e a outra parte da nossa preocupação estará no gerenciamento do inventário.
Inicialmente conseguiremos carregar no máximo seis itens, o que inclui o que coletarmos pelo caminho, armas, comida e armaduras. Por um lado, esse inventário reduzido incentiva expedições curtas, mas, ao jogar sozinho, o resultado é ter que ir e voltar muitas vezes para a base, com o objetivo de guardar alguns itens e pegar comida.
Um detalhe curioso está no sistema de renascimento dos inimigos. De tempos em tempos nos depararemos com monstros que derrotamos anteriormente. Num primeiro momento, não gostei da ideia, mas então entendi que isso aumenta a tensão e faz com que uma incursão nunca seja igual à anterior.
Mas aquilo que deverá causar mais reclamações é o sistema de combate. Com um estilo bastante parecido com o do clássico King’s Field, as batalhas quase sempre se resumirão a desferir um ataque, recuar e repetir. É uma mecânica simples, repetitiva e um tanto rígida. A variedade de ataques dos monstros é pouco criativa e motivadora, o que não significa que teremos vida fácil.

Crédito: Divulgação / Behold Studios
Na verdade, Deep Dish Dungeon é um jogo extremamente impiedoso. Mesmo um monstro mais fraco poderá nos matar com poucos golpes, e atravessar as salas e corredores de forma acelerada quase nunca será uma boa ideia. Ou seja, se você não tiver paciência, provavelmente se frustrará tanto que abandonará o título antes mesmo de ele te apresentar suas principais qualidades.
No entanto, se o objetivo for ter contato com uma experiência imersiva e que se torna ainda mais divertida quando encarada com a ajuda de amigos, o trabalho da Behold Studios poderá te conquistar.
O importante aqui é que você esteja disposto a partir em uma viagem que remete há 30 anos, quando o primeiro PlayStation nos apresentava às maravilhas dos gráficos em três dimensões. Entendo que não gosta desse tipo de estética, mas, neste caso, a escolha faz todo o sentido. Além de proporcionar uma atmosfera sombria, o visual tem sua beleza artística e ajuda a aproximar o título daquela que parece ser sua maior fonte de inspiração: o clássico King’s Field.
Para mim, a satisfação em encontrar um atalho, de desvendar um quebra-cabeça ou entender como certas mecânicas funcionam acaba superando todos os problemas que o Deep Dish Dungeon apresenta. Não é um jogo perfeito, mas é um dungeon crawler que eu precisava (e nem sabia) no momento.