Primeiro em 2D, depois em três dimensões, houve uma época em que toda desenvolvedora de games tentou emplacar um mascote. Porém, essa é uma indústria que vive em ondas e essa febre (felizmente) passou. Mesmo assim, vez ou outra algum título tenta voltar aos tempos áureos dos jogos de plataforma, e o surpreendente Duskfade é um deles.

Desenvolvido pelo estúdio espanhol Weird Beluga, o título chegou em agosto de 2026 para PC, PlayStation 5, Xbox Series X|S e Nintendo Switch 2, assumindo sem muita cerimônia a missão de recuperar uma fórmula que foi extremamente popular durante a era do PlayStation 2: mundos coloridos, exploração, colecionáveis, plataformas tridimensionais, combate em terceira pessoa e personagens carismáticos.

Para quem jogou Jak & Daxter, Ratchet & Clank, Spyro, Sly Cooper ou os primeiros Kingdom Hearts, a familiaridade será imediata. Duskfade não tenta esconder suas referências, e o resultado é curioso porque, ao mesmo tempo em que consegue reproduzir muito bem aquela sensação de aventura que os jogos de plataforma 3D do início dos anos 2000 transmitiam, também expõe o principal problema de seguir tão de perto uma fórmula antiga: em determinados momentos, a homenagem se aproxima demais da imitação.

Crédito: Weird Beluga

Nele, o jogador assumirá o controle de Zirian, um jovem aprendiz que vê sua vida virar de cabeça para baixo quando sua irmã, Allira, desaparece em circunstâncias relacionadas à misteriosa Clock Tower. O acontecimento também mergulha o mundo em uma noite aparentemente interminável, levando Zirian a atravessar diferentes regiões enquanto tenta encontrar a irmã e compreender os segredos relacionados aos chamados Master Clockmakers. Contudo, ele não fará essa jornada sozinho: seu companheiro Cuckoo, um pequeno pássaro mecânico, acompanha a aventura e ajuda a dar personalidade à dupla. 

Sem dar muitos detalhes, é justamente na maneira como Duskfade utiliza o conceito de tempo que a história fica mais interessante. A aventura começa parecendo apenas uma missão de resgate, mas o tema central aos poucos se aproxima de questões como perda, amadurecimento, memória e a dificuldade de aceitar aquilo que não pode ser mudado. O contraste é uma das características mais interessantes do jogo: enquanto visualmente o Duskfade parece uma fantasia colorida e quase infantil, sua narrativa trabalha emoções muito mais maduras. 

No entanto, Duskfade é, no fundo, um jogo de exploração. O prazer está menos em enfrentar inimigos extremamente inteligentes e mais em entrar em uma nova área, perceber que existe alguma coisa interessante no horizonte e descobrir como chegar até ela. O arsenal de movimentação de Zirian aumentará com o decorrer da aventura, permitindo combinar ações como salto, dash, gancho e deslize. A consequência é uma exploração que fica gradualmente mais interessante à medida que ganhamos novas ferramentas. Em vez de simplesmente atravessar os cenários, existe um incentivo constante para olhar para cima, procurar caminhos alternativos e lembrar de locais que anteriormente pareciam inacessíveis. 

Duskfade

Crédito: Weird Beluga

Em Duskfade o objetivo não é punir o jogador a todo instante. A intenção é oferecer uma aventura confortável, cheia de segredos e com progressão baseada em habilidades. É uma estrutura muito característica da época em que os jogos 3D queriam que você explorasse um mundo por curiosidade, e não necessariamente porque o mapa estava cheio de marcadores obrigando você a fazê-lo.

A movimentação é outro ponto forte. Ao nos entregar um personagem extremamente ágil, mover-nos pelos cenários é algo quase sempre muito agradável. Há momentos em que o jogo consegue combinar salto, deslocamento aéreo, gancho e outras habilidades de maneira bastante satisfatória, uma das melhores experiências que já tive no gênero. 

O combate, entretanto, é onde Duskfade demonstra suas limitações claramente. Ele funciona, mas raramente é a razão pela qual você estará ansioso para continuar jogando. Zirian possui uma arma parecida com a Keyblade de Kingdom Hearts e enfrenta inimigos em “arenas” espalhadas pelos mundos, mas a variedade de golpes e a profundidade das batalhas não chegam ao nível dos melhores representantes do gênero. 

Esse ponto fraco se torna mais perceptível quando colocamos Duskfade ao lado das próprias referências que o jogo escolheu. Ratchet & Clank tinha armas extremamente variadas; Kingdom Hearts desenvolveu progressivamente um sistema de ação mais elaborado; Jak & Daxter equilibrava movimentação e combate com uma identidade própria. Porém, mesmo chegando perto da sensação desses jogos, ele não consegue reproduzir integralmente a mesma qualidade dessas mecânicas. Os inimigos comuns se tornam previsíveis e algumas batalhas parecem existir mais para quebrar o ritmo da exploração do que para oferecer um desafio realmente memorável. Em compensação, os chefes receberam um tratamento mais cuidadoso, frequentemente misturando combate com elementos de plataforma e aproveitamento do cenário. 

Duskfade

Crédito: Weird Beluga

Já na parte visual, o título mostra força. Combinando “arquitetura clockpunk” — como o estúdio gosta de chamar —, fantasia e uma estética de desenho animado, o resultado é muito bonito, com cenários que conseguem chamar atenção. Castelos, vilarejos, estruturas mecânicas, áreas naturais e ambientes fantásticos apresentam uma variedade considerável, e a direção de arte utiliza iluminação e cores para criar uma identidade visual bastante consistente. 

Outro mérito vai para a variedade dos cenários. Duskfade não parece satisfeito em repetir o mesmo bioma com pequenas alterações. As regiões possuem características próprias e o jogo merece destaque quando somos apresentados a uma nova área, deixando o jogador descobrir como ela funciona. Essa variedade ajuda a manter a aventura visualmente interessante e contribui para a sensação de uma verdadeira jornada.

Com tantos jogos atuais incorporando elementos de RPG, é bom ver uma obra que evita seguir por este caminho. Aqui o foco está na simplicidade, em chegarmos a um lugar, coletar o máximo de coisas que conseguirmos, eventualmente derrotar um chefe e seguir adiante. 

Crédito: Weird Beluga

Isso faz com que Duskfade pareça muito um jogo do início dos anos 2000, o que poderá desagradar algumas pessoas. Talvez os desenvolvedores pudessem ter arriscado mais, se desgarrado mais das fontes que os inspiraram. Mas, se você busca um jogo que está mais preocupado em oferecer exploração e testar suas habilidades de saltar de uma plataforma para outra em uma progressão linear, isso não deverá ser um problema.  

Para o público old school, portanto, Duskfade é uma recomendação relativamente fácil, desde que se entenda o produto pelo que ele é. Não é um novo Jak & Daxter, nem um sucessor espiritual perfeito de Kingdom Hearts, muito menos uma revolução no gênero. É uma produção independente extremamente consciente de suas influências, que tenta recuperar uma sensação específica: um platformer 3D de aventura feito com carinho, em que explorar uma nova área é até mais importante do que derrotar o próximo inimigo.

Talvez ainda seja muito cedo para dizer isso, mas a sensação é de que o pessoal da Weird Beluga conseguiu o que muitos estúdios perseguiram por anos e até mais do que isso, que estão com uma poderosa nova franquia nas mãos.

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Pai em tempo integral do Nicolas, enquanto se divide entre a comunicação pública e o Vida de Gamer, tenta encontrar um tempinho para aproveitar algumas das suas paixões, os filmes, os quadrinhos, o futebol e os videogames. Acredita que um dia conseguirá jogar todos os games da sua coleção.