Desde a ascensão dos indies, a indústria de games tem saciado a fome de quem sentia falta de alguns subgêneros: de beat ‘em ups a homenagens a survival horrors do PSOne, passando por títulos que reciclam a fórmula de Diablo, shoot ‘em ups e um sem-número de estilos que pareciam perdidos no tempo. Porém, havia um nicho quase intocado pelos desenvolvedores: o RPG em primeira pessoa lento, opressivo e propositadamente hostil, que a FromSoftware nos apresentou com o clássico King’s Field.

Fundando as bases do que anos depois se tornaria uma das franquias mais adoradas e influentes do mercado, a Demon’s Souls, aquele RPG para o primeiro console da Sony é constantemente reverenciada por muitos que acompanham a genealogia do gênero “soulslike”. Mesmo assim, a série raramente foi revisitada competentemente por outros estúdios e Verho – Curse of Faces surgiu como uma tentativa de quebrar essa, com o perdão do trocadilho, maldição.

Desenvolvido pela pequena Kasur Games e publicado pela CobraTekku Games, o título chegou em novembro de 2025 ao PC e agora salta para o PlayStation 5, Xbox Series S|X e Nintendo switch tentando ocupar esse vazio — e faz isso bem, mesmo com as limitações de uma produção modesta.

Verho - Curse of Faces

Crédito: Kasur Games

Verho – Curse of Faces conta a história de uma guerra entre duas ordens rivais de feiticeiros que deixou como legado a chamada Maldição dos Rostos, um fenômeno pelo qual duas pessoas que se enxergam sem proteção morrem instantaneamente, ao mesmo tempo. Por causa disso, o mundo quase desmoronou nos 264 anos seguintes, período conhecido como “Era da Solidão”. Com o passar do tempo, uma pessoa descobre que máscaras podem ser usadas para evitar o mal, funcionando como um mecanismo de sobrevivência coletiva. Será nesse universo surreal que assumiremos o papel de um viajante sem nome, permanentemente mascarado, e que se aventura pelas terras devastadas de Yariv, um lugar com castelos em ruínas, masmorras úmidas, florestas sombrias e muitos monstros.

O título usa esse contexto para nos apresentar às classes que precisaremos escolher. Cada máscara molda atributos iniciais e sugere (sem nunca travar de vez) um estilo de combate. A partir dessa decisão, Verho – Curse of Faces evita nos entregar qualquer coisa parecida com um diário de missões ou uma bússola de objetivos. A mitologia se revela em fragmentos por meio de diálogos esparsos com NPCs, anotações escondidas pelo cenário e a arquitetura do mundo que narra sua própria decadência.

Assim, a exploração de Yariv se apresenta como uma das principais dualidades do jogo. Enquanto alguns adorarão explorar aquele mundo e ter que interpretar boa parte de sua história, outros se sentirão perdidos e sem dar muita atenção ao enredo. Contudo, para quem está acostumado com as criações de Hidetaka Miyazaki, essa zona cinzenta em que se encontram os detalhes da história não deverá ser uma surpresa. 

Verho - Curse of Faces

Crédito: Kasur Games

Mas, se a narrativa criada pela Kasur Games pode dividir opiniões, o sistema de combate lento e pesado, que exige leitura de padrões de inimigos, deverá agradar, principalmente quem jogou a principal fonte de inspiração para o Verho – Curse of Faces. Ele recompensa aqueles que entendem que cada arma se comporta de um jeito radicalmente distinto: enquanto floretes empurram o personagem para a frente em investidas de precisão, armas pesadas pedem posicionamento estático e paciência para carregar o golpe certo. Já a magia soma uma camada extra de profundidade real, com um sistema de fraquezas elementais. O jogo entrega combates que se recusam a copiar a linguagem contemporânea dos soulslikes, sem contar com esquivas invencíveis.

O desenho de mundo segue a mesma lógica de reverência inteligente. Yariv é construída como um Metroidvania orgânico, com atalhos, segredos e uma sensação constante de que cada corredor pode esconder tanto uma armadilha mortal quanto um equipamento que muda o rumo de uma build inteira. É um tipo de exploração que praticamente desapareceu nas grandes produções — sem marcador no mapa, sem seta indicando para onde ir —, e que funciona porque os desenvolvedores confiam na curiosidade de quem está jogando.

A direção de arte retrô, com modelos poligonais simples e paletas de cor contidas, também merece crédito além da nostalgia óbvia: o visual que muitos considerarão datado ajuda a manter a legibilidade do combate e reforça a sensação de isolamento que a narrativa quer transmitir, funcionando como decisão estética coerente, não como desculpa para falta de recursos. O design sonoro reforça esse clima, com passos ecoando pelos corredores vazios e rugidos distantes que constroem tensão antes mesmo de qualquer ameaça aparecer na tela.

Contudo, Verho – Curse of Faces não está livre de problemas. Além de eventuais bugs, o sistema de detecção de acerto é inconsistente, especialmente contra inimigos voadores, gerando picos de dificuldade que parecem mais injustos do que desafiadores.

Outro ponto que merece crítica é sua estrutura estrutural. Com o mundo reiniciando todos os inimigos derrotados a cada vez que salvamos o progresso, a ideia remete diretamente ao Dark Souls, mas resulta em uma desmotivadora repetição. É conveniente para quem quer nivelar o personagem rapidamente, mas também esvazia parte da tensão que o próprio combate trabalhou tanto para construir, criando um atalho que desequilibra a curva de dificuldade pensada pelos designers.

Crédito: Kasur Games

Com seus acertos e equívocos, Verho – Curse of Faces não é um jogo para todo mundo, e não tem a menor intenção de ser. Embora alguns possam considerar seus gráficos e controles muito datados, é inegável que o título sirva como um dos exercícios de arqueologia de design mais sinceros que o gênero recebeu em muito tempo, com um sistema de combate que recompensa paciência de verdade e um mundo que existe para ser decifrado, não digerido passivamente.

Para o público que sempre quis “mais King’s Field” e nunca recebeu, a Kasur Games conseguiu entregar uma das melhores experiências que o gênero teve em décadas. Ou seja, para conhecedores do gênero, pessoas que sentiram falta daquela sensação específica de vulnerabilidade que o clássico da FromSoftware oferecia e que o mercado atual raramente arrisca replicar, Verho – Curse of Faces é obrigatório, mesmo com seus defeitos. Se mesmo assim você tiver dúvidas, vale a pena dar uma chance à generosa demo disponível no Steam.

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Pai em tempo integral do Nicolas, enquanto se divide entre a comunicação pública e o Vida de Gamer, tenta encontrar um tempinho para aproveitar algumas das suas paixões, os filmes, os quadrinhos, o futebol e os videogames. Acredita que um dia conseguirá jogar todos os games da sua coleção.