Em algum dia de 1991 ou 1992, eu entrei em uma locadora que frequentava a procura de algo diferente para jogar no meu Mega Drive. Entre tantas caixas, uma ilustração me chamou a atenção: ela trazia a ilustração de uma nave disparando raios azuis em um enorme monstro e, mesmo sem saber do que se tratava, levei aquele cartucho para casa.

Conhecido no Ocidente como Truxton (Tatsujin no Japão), não posso dizer que o jogo se tornou um dos meus shoot ‘em up favoritos, mas nunca o esqueci. Então, com versões para PC, Nintendo Switch 2 e PlayStation 5, mais de três décadas depois aquele clássico retorna com o Truxton Extreme.

Nele, a civilização humana se espalhou por sete planetas colonizados, vivendo uma era de prosperidade sem precedentes — até que essa paz foi destruída de forma repentina por uma invasão de uma civilização extraterrestre. Diante do poder tecnológico do inimigo, a humanidade se vê obrigada a resistir com o que lhe resta, e é nesse contexto que os três protagonistas jogáveis são trsnformados em ciborgues conhecidos como Tatsujin, e assim poderão assumir o os controles de naves na tentativa de conter o avanço inimigo.

Crédito: Tatsujin

Em Truxton Extreme, a narrativa é conduzida por meio de quadrinhos animados entre as fases do modo História. Com arte do mangaká Junya Inoue (Batsugun e DoDonPachi), a HQ alterna entre as perspectivas dos três pilotos ao longo de seis estágios, numa campanha que mistura drama humano com a urgência da guerra pela sobrevivência.

Por mais que o enredo seja batido, fiquei surpreso em ver algo um pouco mais complexo em um jogo do gênero, e a alternância (e interação) entre o trio ajuda a tornar a história mais interessante. O que lamento é a estrutura das fases não mudar, já que seria muito melhor se cada estágio fosse mostrado por um ponto de vista diferente.

Mesmo assim, o ponto em que Truxton Extreme se destaca positivamente é na sua jogabilidade. Aqui temos um título que, embora seja conservador em seu design, entrega um shooter vertical com execução refinada. Ao longo das fases teremos um desafio elevado, com os chefes desafiadores sem parecerem injustos, e a recompensa pela memorização de padrões de inimigos, bem como pelo gerenciamento estratégico de recursos, como a escolha de armas, o controle de velocidade da nave e uso do medidor de energia especial (EX) para causar maior dano.

Crédito: Tatsujin

Outra escolha de design acertada é o sistema de penalidade ao morrer: perder uma vida não zera todo o progresso do jogador, apenas reduz um nível os upgrades de ataque e velocidade, e o renascimento ocorre um pouco antes do ponto da morte. Contra chefes, o jogo até recua o suficiente para permitir recuperar parte do poder perdido antes do confronto.

A apresentação também merece elogios. Com visuais construídos em 3D, eles preservam o design icônico da série, com criaturas de aparência insectoide, tentáculos, serpentes assustadoras e luzes pulsantes que remetem diretamente à estética original, mas com efeitos gráficos modernos. Já a trilha sonora é outro destaque: composta por Masahiro Yuge, pianista de formação clássica e que nos deu o primeiro jogo, ele retorna com uma trilha nova que mistura faixas reimaginadas dos jogos originais com composições inéditas, mantendo o caráter empolgante que se tornou marca registrada da série.

Em termos de variedade, Truxton Extreme oferece um pacote generoso de modos, com um modo Arcade tradicional sem narrativa, um modo Time com cooperativo local simultâneo para dois jogadores, um modo Arena voltado a pontuação e um tutorial, além do modo História. Essa variedade permite que tanto veteranos quanto novatos encontrem uma porta de entrada adequada ao seu nível, sem que isso comprometa a dificuldade do núcleo arcade para quem busca um bom desafio. Porém, senti falta da possibilidade de jogar o primeiro capítulo da série. Isso seria um ótimo bônus, mas, como ela se encontra à venda em algumas lojas digitais, a editora provavelmente optou por garantir uma renda extra.

Crédito: Tatsujin

Mesmo podendo desagradar pela falta de inovação, Truxton Extreme é um shoot ‘em up sólido e tecnicamente impecável, que presta uma homenagem respeitosa à herança da Toaplan sem tentar reescrever as regras do gênero. Para os jogadores mais antigos que valorizam mecânicas precisas, desafio genuíno e uma trilha sonora à altura do legado da série, é uma adição praticamente obrigatória. Para os novos, ele serve como uma ótima porta de entrada para uma franquia que conseguiu reservar seu lugar na história — e não apenas pela sua bela capa.

Com uma ponta de otimismo, torço para que essa aposta mais segura tenha sido feita como forma de resgatar o saudosismo dos antigos fãs e assim um Truxton Extreme 2 consiga sair um pouco da sua zona de segurança. Mas, se isso não acontecer, foi bom ver um novo trabalho de Masahiro Yuge, principalmente pela alta qualidade alcançada.

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Pai em tempo integral do Nicolas, enquanto se divide entre a comunicação pública e o Vida de Gamer, tenta encontrar um tempinho para aproveitar algumas das suas paixões, os filmes, os quadrinhos, o futebol e os videogames. Acredita que um dia conseguirá jogar todos os games da sua coleção.