Quando Markus “Notch” Persson lançou o Minecraft, ele revolucionou a indústria de games. De lá para cá, diversos títulos tentaram surfar na onda gerada pelo sueco, e o gênero que mistura sandbox com sobrevivência nos rendeu algumas experiências interessantes, entre elas o Enshrouded, título que iniciou sua caminhada em 2024 e agora chega em uma versão “final”, inclusive para o PlayStation 5.
Em Enshrouded, seremos um personagem sem nome, alguém nascido das chamas com o objetivo principal de salvar o reino de Embervale de um grande mal. Conhecida como Mortalha, a névoa que ameaça o local foi liberada por anciões que buscavam um maior poder mágico.

Crédito: Divulgação / Keen Games
O enredo pode não parecer muito interessante e, de fato, eu não diria que está nele uma das melhores qualidades de Enshrouded. A história servirá como um fio condutor para explorarmos Embervale, enquanto purificamos as regiões do vasto mapa e tentamos descobrir mais sobre aquele mundo ao encontrarmos documentos.
No entanto, o centro do jogo está mesmo na maneira como mistura sobrevivência, criação de itens, construção de bases e elementos de RPG de ação. De forma bem simples, podemos dizer que nele iremos explorar, coletar recursos, melhorar nossa base e evoluir para chegar a áreas cada vez mais perigosas. Tudo girando em torno de um elemento chamado altar da chama, que definirá a área em que poderemos construir e nos dará acesso a teletransporte.
Esses altares também poderão ser melhorados, o que nos permitirá permanecer mais tempo na mortalha ou ampliar a área de construção. Além disso, será nesses locais que poderemos colocar alguns NPCs que despertarmos, o que nos dará acesso a missões e estações de criações.
Mas, se nas bases teremos toda a tranquilidade para gerenciar itens ou nos preparar, a situação mudará completamente ao entrarmos em uma região tomada pela mortalha. O problema é que, embora seja possível encontrar itens mais poderosos ou até exclusivos dessas áreas, o nosso personagem só durará alguns minutos nesses ambientes, fazendo com que cada expedição precise ser planejada e o risco calculado.
Já quando se trata da construção, ela funciona de maneira simples e modular, com as “peças” podendo se alinhar de maneira automática. O interessante é que mesmo se tratando de um jogo com boa qualidade visual, tudo pode ser moldado ou destruído, afinal, estamos falando de um mundo criado com voxels.
Outra maneira fácil de entender o voxel é pensar nele como um bloco de montar, um pequeno cubo que possui dados de cor, densidade e posição no espaço.

Crédito: Divulgação / Keen Games
Com a criação de itens seguindo um sistema de camadas, onde, por exemplo, uma arma mais forte precisa da criação de uma mais fraca, cada material novo abre receitas melhores, e isso incentiva a exploração. Em sua versão 1.0, Enshrouded também ganhou um sistema que nos permite montar mecanismos lógicos e, com eles, podemos criar desde interruptores, armadilhas e quebra-cabeças.
Passando para os combates, além de usar armas variadas para enfrentar monstros a curta distância, aqui também teremos acesso a arcos, varinhas mágicas e cajados. É um sistema flexível e que permite que estilos variados possam ser alternados. Não chega a ser algo tão divertido (e preciso) quanto um hack and slash, mas também não considero que as batalhas sejam um problema.
O que me surpreendeu positivamente foi a parte visual. Mesmo tendo jogado o Enshrouded no PC logo que ele foi disponibilizado, agora no PlayStation 5 seus gráficos me causaram uma impressão ainda melhor. Rodando sem queda de frames no modo Performance, esse não é um título capaz de duelar visualmente com as grandes produções, mas, se considerarmos o mundo aberto imenso em que quase tudo pode ser destruído e que até 16 pessoas podem jogar online no PC (8 no PS5), acredito que o pessoal da Keen Games tenha conseguido um ótimo resultado.
Saindo do Acesso Antecipado

Crédito: Divulgação / Keen Games
Após passar cerca de dois anos como em Acesso Antecipado no Steam, em outubro o Enshrouded venceu essa barreira, entregando um refinamento bastante impressionante. Contando com um novo modo de construção com câmera livre, quem gosta de criar fortalezas ou qualquer tipo de construção de grande porte se sentirá mais à vontade, com o limite sendo o que tivermos no nosso inventário, não a interface.
Adicione a isso o sistema de lógicas e conexão, que nos permite criar mecanismos com interruptores e armadilhas. O problema em relação a isso é que, como o jogo não explica a mecânica, ter conhecimento sobre o funcionamento de circuitos será fundamental para fazer com que sistemas mais elaborados funcionem corretamente. Com sorte, o estúdio implementará um bom tutorial para que algo tão poderoso não fique restrito a um pequeno grupo de pessoas.
Essa nova versão também passou por uma reformulação na árvore de habilidades. Com isso, o progresso se tornou mais equilibrado, com ganhos passivos misturados a habilidades ativas. Houve ainda as adições de biomas e masmorras, que, somadas a todo o conteúdo disponibilizado ao longo do Acesso Antecipado, fazem com que tenhamos muito a conhecer durante as partidas.

Crédito: Divulgação / Keen Games
Contudo, um escopo tão grande pode ser visto como um ponto negativo. Enshrouded possui um inicial lento, em que tudo demora muito para acontecer e, no fundo, se trata de um jogo que exige muita dedicação. Essa morosidade será reduzida ao jogarmos na companhia de outras pessoas, multiplayer, que, por sinal, é a forma como o título foi pensado. Mesmo assim, é bom saber que ele poderá ser aproveitado mesmo se estivermos sozinhos.
Vencer a etapa do Acesso Antecipado é o sonho de muitas desenvolvedoras — e das pessoas que gostaram do jogo neste estágio —, mas, em muitos casos, isso não significa que o projeto tenha sido deixado de lado. No caso do Enshrouded, a minha torcida é para que seus criadores aproveitem os próximos meses para implementar outras melhorias, como partidas entre plataformas e a chegada ao Xbox Series S|X.
Ainda assim, da maneira como se encontra atualmente, já é suficiente para considerar a criação da Keen Games uma das melhores experiências que tive com jogos de construção/sobrevivência. Eu só queria ter tempo para me dedicar mais a ele, podendo construir tudo aquilo que passou pela minha cabeça, mas que sei que não conseguirei, porque não terei os materiais necessários.